Portuguese poem
X (Callou-se o monge: sepulchral silencio)
by Alexandre Herculano (1810–1877)
Callou-se o monge: sepulchral silencio Á sua voz seguiu-se: e um som soturno De orgam partiu-o; som que assemelhava O suspiro saudoso, e os ais de filha, Que chora solitaria o páe, que dorme Seu ultimo, profundo e eterno somno. Harmonias depois soltou mais doces O instrumento suave; e ergueu-se o canto, O lamentoso canto do propheta, Da patria sobre o fado. Elle, que o víra, Sentado entre ruinas, contemplando Seu avíto esplendor, seu mal presente, A quéda lhe chorou: lá na alta noite, Modulando o Nebel, via-se o vate Nos derrubados porticos, abrigo Do immundo stellio e gemedora poupa, Extasiado—e a lua scintillando Na sua calva fronte, onde pesavam Annos e annos de dor: ao venerando Nas encovadas faces fundos regos Tinham aberto as lagrymas: ao longe, Nas margens do Kedron, a rãa grasnando Quebrava a paz dos tumulos. Que tumulo Era Sion!—o vasto cemiterio Dos fortes de Israel. Mais venturosos Que seus irmãos, morreram pela patria; A patria os sepultou dentro em seu seio: Elles, em Babylonia, as mãos em ferros, Passam de escravos miseranda vida, Que Deus pesou seus crimes, e, ao pesá-los, A dextra lhe vergou. Não mais no templo A nuvem repousára, e os ceus de bronze Dos prophetas aos rogos se amostravam, O vate de Anathoth a voz soltára Entre o povo infiel, de Eloha em nome: Ameaças, promessas, tudo inutil; De ferro os corações não se dobraram. Vibrou-se a maldicção: bem como um sonho Jerusalem passou: sua grandesa Somente existe em derrocadas pedras. O vate de Anathoth, sobre seus restos, Com tal lamento se doeu da patria: Canto de morte alçou: da noite as larvas O som lhe ouviram: squallido esqueleto, Rangendo os ossos, d'entre a hera e musgos Do portico do templo erguia um pouco, Alvejando, a caveira:—era-lhe alivio Do sagrado cantor a voz suave Desferida ao luar, triste, no meio Da vasta solidão que o circumdava: O propheta gemeu: não era o estro, Ou o vivido júbilo que outrora Inspirára Moysés: o sentimento Fui sim pungente do silencio e morte, Que da patria lhe fez sobre o cadaver A elegia da noite erguer, e o pranto Derramar da esperança e da saudade.