Portuguese poem
XIV (Ide vós a Mambré:--lá, bem…)
by Alexandre Herculano (1810–1877)
Ide vós a Mambré:—lá, bem no meio De um valle, outrora de verdura ameno, Erguia-se um carvalho magestoso: Debaixo de seus ramos, largos dias Abrahão repousou: na primavera Vinham os moços adornar-lhe o tronco De capellas cheirosas de boninas, E corêas gentis traçar-lhe em roda. Nasceu com o orbe a planta veneravel, Viu passar gerações, julgou seu dia Final fosse o do mundo, e quando airosa Por entre as densas nuvens se elevava, Mandou o Nume aos aquilões rugíssem. Ei-la por terra! As folhas, pouco a pouco, Murcharam-se caíndo, e o rei dos bosques Servio do pasto aos tragadores vermes: Deus estendeu a mão:—no mesmo instante A vinha se mirrou: juncto aos ribeiros Da Palestina os platanos frondosos Não mais cresceram, como d'antes, bellos: O armento, em vez de relva, achou nos prados Somente ingratas, espinhosas urzes. No Golgotha plantada, a Cruz clamára Justiça: a seu clamor horrido espectro No Moriah sentou-se; era seu nome Assolação—e despregando um grito, Caíu com longo som de um povo a campa. Assim a herança de Judah, outrora Grata ao Senhor, existe só nos ecchos Do tempo que já foi, e que ha passado Como hora de prazer entre desditas.
Minha Patria onde existe? É lá somente!
Oh lembrança da Patria acabrunhada Um suspiro tambem tu me has pedido: Um suspiro arrancado aos seios d'alma Pela offuscada gloria, e pelos crimes Dos homens que ora são, e pelo opprobrio Da mais illustre das nações da terra!
A minha triste Patria era tão bella, E forte, e virtuosa! e ora o guerreiro E o sabio e o homem bom acolá dormem, Acolá, nos sepulchros esquecidos, Que a seus netos infames nada contam Da antiga honra e pudor e eternos feitos.
O escravo portuguez agrilhoado Carcomir-se-lhes deixa juncto ás lousas Os decepados troncos desse arbusto, Por mãos delles plantado á liberdade, E por tyrannos derrubado em breve, Quando patrias virtudes se acabaram, Como um sonho da infancia. O vil escravo Immerso em vicios, em bruteza e infamia Não erguerá os macerados olhos Para esses troncos, que destroem vermes Sobre as cinzas de heróes, e, acceso em pejo, Não surgirá jámais?—Não ha na terra Coração portuguez, que mande um brado De maldicção atroz, que vá cravar-se Na vigilia e no somno dos tyrannos, E envenenar-lhes o prazer nos braços Das prostitutas vís, e em seus banquetes De embriaguez, lançar fel e amarguras?
Não!—Bem como um cadaver já corrupto, A nação se dissolve: e em seu lethargo O povo, involto na miseria, dorme.