Versos Portuguese Alexandre Herculano XVI (Cessou da noite a grão…)

Portuguese poem

XVI (Cessou da noite a grão…)

by (1810–1877)

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Cessou da noite a grão solemnidade Consagrada á tristeza, e a memorandas Recordações:—os monges se prostraram A face unida á pedra: a mim, a todos Correm dos olhos lagrymas suaves De compuncção. Atheu, entra no templo; Não temas esse Deus, que os labios negam, E o coração confessa: a corda do arco Da vingança, em que a morte se debruça Frouxa está; Deus é bom; entra no templo. Tu para quem a morte ou vida é fórma, Fórma sómente de mais puro barro, Que nada crês, mas nada esperas, olha, Olha o conforto do christão: se o calis Da amargura a provar os ceus lhe deram, Elle se consolou: balsamo sancto Dentro no coração a fé lhe entorna "Deus piedade terá!"—Eis seu gemido: Porque a esperança lhe sussurra emtorno: "Aqui—ou lá—a Providencia é justa."

Atheu, a quem o mal fizera escravo, Teu futuro qual é? Quaes são teus sonhos? No dia da afflicçâo emmudeceste Ante o espectro do mal. E a quem alçaras O gemente clamor?—Ao mar, que as ondas Não altera por ti?—Ao ar, que some Pela sua amplidão as queixas tuas? Aos rochedos alpestres, que não sentem, Nem sentir podem teu gemido inutil? Tua dôr, teu prazer existem, passam, Sem porvir, sem passado, e sem sentido. Nas angustias da vida, o teu consolo O suicidio é só, que te promette Rica messe de goso, a paz do nada!— E ai de ti, se buscaste, em fim, repouso, No limiar da morte indo assentar-te! Alli grita uma voz no ultimo instante Do passamento: a voz atterradora Da Consciencia é ella: e has-de escutá-la Mau grado teu: e tremerás em sustos, Desesperado aos ceus erguendo os olhos Irados, de travez, amortecidos— Aos ceus, cujo caminho a Eternidade Co'a vagarosa mão te vai cerrando, Para guiar-te á solidão das dores, Onde maldigas teu primeiro alento, Onde maldigas teu extremo arranco, Onde maldigas a existencia e a morte.