Portuguese poem
VI (Anoiteceu:--nos claustros resoando)
by Alexandre Herculano (1810–1877)
Anoiteceu:—nos claustros resoando As pisadas dos monges ouço: eis entram; Eis se curvaram para o chão beijando O pavimento, a pedra: oh sim, beijai-a! Igual vos cubrirá a cinza um dia, Talvez em breve—e a mim. Consolo ao morto É a pedra do tumulo. Se-lo-ia Mais se do justo só a herança fora; Mas tambem ao malvado é dada a campa.
E o criminoso dormirá quieto Entre os bons sotterrado!—Oh não! em quanto No templo ondeam silenciosas turbas, Exultarão do abysmo os moradores, Vendo o hypocrita vil, mais ímpio que elles, Que escarnece do Eterno, e a si se engana; Vendo o que julga que orações apagam Vicios e crimes, e o motejo e o riso Dado em resposta ás lagrymas do pobre; Vendo os que nunca ao infeliz soltaram De consolo palavra, ou de esperança: Sim:—malvados tambem hão-de pisar-lhes Os frios restos que separa a terra, Um punhado de terra, a qual os ossos Destes ha-de cubrir em tempo breve, Como cubriu os seus, qual vai sumindo Nos mysterios da campa a humanidade.
Porém a turba esvae-se: ermam bem poucos Do templo na amplidão: só lá no fundo De affumada capella, o justo as preces Ergue pio ao Senhor, as preces puras De um coração que espera, e não mentidas De labios de impostor, que engana as turbas Com seu meneio hypocrita, calcando Na alma lodosa da blasphemia o grito. Então exultarão os bons, e o ímpio, Que passou, tremerá. Em fim, de vivos, Da voz, do respirar o som confuso Vem-se verter no sussurrar das praças, E pela galilé só ruge o vento. Em trevas não ficou silenciosas O sagrado recinto: os candieiros, No gelado ambiente ardendo a custo, Espalham debeis raios que reflectem Das pedras pela alvura; o negro mocho, Companheiro do morto, horrido pio Solta lá da cornija; pelas fendas Dos sepulchros deslisa um fumo espesso, Ondêa pela nave—esvái-se: um longo Suspiro não se ouviu!—Olhai! lá se erguem De umas espectros palidos, medonhos, A quem baço clarão da luz dos mortos Ainda custa a soffrer:—eis de outras surgem Radiosos espiritos que o premio Da virtude, nos ceus, hão recebido: Alli treme ante o pobre o rico, e o forte Ante o humilde, que nelle os olhos fita Severo:—oh que tormento! infernaes dores São doces para o máu, a par do aspecto Do bom, que mudo lhe recorda os crimes. Ai!—nem paz cabe nos mortos! Entre as campas Ainda habita o remorso. Embalde, espectro, Te curvas ante as aras que insultaste: Debalde imploras o perdão celeste. Expiraste: o perdão morreu comtigo. Infeliz para sempre, a mão levanta A essa fronte gelada; entre teus olhos De azulado fulgor ampla rajada Toca—eterno signal que no perverso Do cherubim da morte a dextra estampa: Toca-a... Deus reprovou-te; a herança tua Volveu-se em maldicção: luz de esperança Para ti apagou-se: o abysmo evoca O filho seu; despenha-te no abysmo!
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