Portuguese poem
A vida é uma comedia sem sentido
by Álvares de Azevedo (1831–1852)
AO MEU AMIGO J. F. MOREIRA
Apaga sobre a fronte macilenta A lâmpada da vida.
Não digas, coração, que a alma descansa Quando as idéias no prazer enfurda O escárnio zombeteiro... Que loucura!... amanhã o peito cansa... Resta um enterro... e uma reza surda... E depois... o coveiro!
Fermente a seiva juvenil no peito, Vele o talento numa fronte santa Que o gênio empalidece... Embalde! à noite, ao pé de casa leito O fantasma terrível se levanta... E seu bafo entorpece!
E contudo essa morte é um segredo Que gela as mãos do trovador na lira E escarnece da crença; Um pesadelo - uma visão de medo... Verdade que parece mentira E inocula a descrença!
E quem sabe? é a dúvida medonha! Quem os véus arregaça do infinito
E os túmulos destampa? Quem, quando dorme ou vela, ou quando sonha, Ouviu revelações no horrendo grito A rebentar da campa?
E quem sabe? é a dúvida terrível: É a larva que aos lábios nos aperta, Entreabrindo o sudário! A realidade é um pesadelo incrível! Semelha um sonho a lápida deserta E o leito mortuário!
E quando acordarão os que dormitam? Quando estas cinzas se erguerão, tremendo, Em nuvens se expandindo? Perguntai-os aos ciprestes que se agitam, Ao vento pela treva se escondendo, Nas ruínas bramindo!
E contudo parece um desvairo, Blasfêmia atroz o cântico atrevido Que rugem osçateus; Sem a sombra de Deus é tão vazio O mundo - cemitério envilecido!... Oh! creiamos em Deus!
Creiamos, sim, ao menos para a vida Não mergulhar-se numa noite escura... E não enlouquecer... Utopia ou verdade, a alma perdida Precisa de uma idéia eterna e pura - Deus e Céu... para crer!
Consola-te! nós somos condenados À noite da amargura: o vento norte Nossos faróis apaga... Iremos todos, pobre naufragados, Frios rolar no litoral - da morte, Repelidos da vaga!
S. Paulo, 2 de novembro 1851