Portuguese poem
A rosa da manhã cedinho aberta
by Álvares de Azevedo (1831–1852)
A rosa da manhã cedinho aberta, A estrella se apagando em céos d’aurora,
Os carmineos rubores do crepusculo, Dos labios o tremer da virgem que ora;
Na selva a briza sen cantar coando; De viuvo sabiá nenias e prantos; A lua pallida nos céos sósinha, Mas no doido tristor cheia d’encantos;
O suave rumor, á noite ouvido, Da terra que resomna em dormir leve; O triste fenecer de rosa pallida, Que sente em seu nascer já morta a seve;
O sentir exhalar-se a alma em extase Em noite de luar silencioso; Quando em torno é silencio tudo, e a praia Abraça o mar em beijos d’amoroso,
O mais languido arfar d’harpa de fadas, E todas essas rosas da natura, E a noite, o dia, e o amor e a crença. Do céo o azul, e os sonhos de ventura;
Sonhar sonhos do Céo — do mel vivendo, De fresca madresilva lá crescida; E á noite imaginar um beijo d’anjo A correr-nos a face enfebrecida;
Tudo isto é menos que beber-te as fallas, Roçar-te a face que enrubesce o pejo Com os labios que fervem-me d’anhelos E — teus olhos nos meus — morrer n’um beijo!