Versos Portuguese Álvares de Azevedo A tempestade

Portuguese poem

A tempestade

by (1831–1852)

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FRAGMENTO

O chão nu e escarvado p'las torrentes Trêmulo se fendeu... Da serrania a lomba escaveirada O raio enegreceu.

Cede a floresta ao arquejar fremente Do rijo temporal, Ribomba e rola o raio, nos abismos Sibila o vendaval.

Nas trevas o relâmpago fascina, A selva se incendeia... Chuva de fogo pelas serras hirtas Fantástica serpeia...

Amo a voz da tempestade, Porque agita o coração... E o espírito inflamado Abre as asas no trovão!

A minh'alma se devora Na vida morta e tranqüila...

Quero sentir emoções, Ver o raio que vacila!

Enquanto as raças medrosas Banham de prantos o chão, Eu quero erguer-me na treva, Saudar glorioso trovão!

Jeová! derrama em chuva Os teus raios incendidos! Tua voz na tempestade Reboa nos meus ouvidos!

É quando as nuvens ribombam E a selva medonha está, Que no relâmpago surge A face de Jeová!

A tuba da tempestade Rouqueja nos longos céus, De joelhos na montanha Espero agora meu Deus!

O caminho rasgou-se: mil torrentes Rebentam bravejando, Rodam na espuma as rochas gigantescas Pelo abismo tombando.

Como em noite do caos, os elementos incandescentes lutam. Negra — a terra, o céu — rubro, o mar — vozeia — E as florestas escutam...

Tudo se escureceu e pela treva, No chão sem sepultura, Os mortos se revolvem tiritando Na longa noite escura.

Profeta escarnecido pelas turbas Disse-lhes rindo — adeus! Vim fitar ao clarão da tempestade — A sombra de meu Deus!