Portuguese poem
Thereza
by Álvares de Azevedo (1831–1852)
Quando junto de mim Thereza dorme, Escuto o seio della docemente: Exhalâo-se dalli notas aereas, Não sei que de amoroso e de innocente!
Coração virginal é um alaúde Que dorme no silencio e no retiro... Basta o roçar das mãos do terno amante, Para exhalar suavissimo suspiro!
Nas almas em botão, nesse crepusculo Que da infante e da flôr abre a corolla,
Murmurão leve os trémulos sentidos, Como ao sopro do vento uma viola.
Diz — amor! — essa voz da lyra interna, E’ suspiro de flôr que o vento agita, Vagos desejos, ancia de ternura, Uma briza de aurora que palpita.
Como dorme innocente esta criança! Qual flôr que abriu de noite o niveo seio, E se entrega da aragem aos amores, Nos meus braços dormita sem receio.
O que eu adoro em ti é no teu rosto O anjelico perfume da pureza; São teus quinze annos n’uma fronte santa O que eu adoro em ti, minha Thereza!
Sào os loiros anneis de teus cabellos, O esmero da cintura pequenina. Da face a rosa viva, e de teus olhos A saphyra que a alma te illumina!
E’ tua fórma aerea e duvidosa — Pudor d’infante e virginal enleio;
Corpo suave que nas roupas brancas Revela apenas que desponta o seio.
Eu sei, mimosa, que tu és um anjo E vives de sonhar, como as Ondinas, E és triste como a rola, e quando dormes Do peito exhalas musicas divinas!
Ah! perdoa este beijo! eu te amo tanto! Eu vivo de tua alma na fragancia... Deixa abrir-te n’um beijo as flores d’alma, Deixa-me respirar na tua infancia!
Não acordes táo cedo! emquanto dormes Eu posso dar-te beijos em segredo... Mas, quando nos teus olhos raia á vida, Nâo ouso te fitar... eu tenho medo!
Emquanto dormes, eu te sonho amante, Irmã de seraphins, doce donzella; Sou teu noivo... respiro em teus cabellos E teu seio venturas me revela...
Deliro... junto a mim eu creio ouvir-te O seio a suspirar, teu ai mais brando,
Pouso os labios nos teus; no teu alento Volta minha pureza suspirando!
Teu amor como o sol apura e nutre; Exhala fresquidâo e doce briza; E’ uma gota do céo que aroma os labios E o peito regenera e suavisa.
Quanta innocencia dorme alli com ella! Anjo desta criança, me perdôa! Estende em minha amante as azas brancas, A infancia no meu beijo abandonou-a!