Versos Portuguese Antero de Quental A Pyramide No Deserto

Portuguese poem

A Pyramide No Deserto

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Além na solidão, sobre os desertos, Tu só te ergues altiva e apontas céos; E deixas, sobranceira ás tempestades, Rugir de um mar de areia os escarcéos!

Tu só! Quem te creou? Mysterio immenso Ao nascer te encobriu, te envolve o sêr... E agora eis-te, rival das serranias, Como ellas condemnada a não morrer.

Tu só! Além, na extrema do horizonte, Passa o Arabe no auge do furor, Luz-lhe na mão o alfange, o olhar fuzila, Vão com elle em tropel morte e terror!

Mas lá surge do accaso arroxeado, Ao mando de medonho furacão, Nuvem de ardente pó que rue sobre elle, Que o sepulta em deserto, árido chão.

Mas tu sorris ás furias da tormenta, Não temendo arrostal-a inda uma vez, E ella, a que troou pelos espaços, Vem tremendo morrer-te ahi aos pés.

Do cimo sublimado, erguido ás nuvens, Vês os sec'los nascer, ruir no pó; E em meio da ruina dos imperios Ficas tu, ó gigante, eterno e só!

Além, n'esse deserto a quem assombras, Que vidas, que paixões se hão revolvido! E a todas o deserto, qual sudario, Nas dobras da mortalha ha envolvido.

Tu podes apontar ao viajante Um nome ou um logar na solidão: Dizer--Alli, Palmira foi cidade-- --Aqui, foi um heroe Napoleão.--

Tu só podes dizel-o. Quem mais sabe, Que pó envolve agora o que morreu? Quem pode differençar, n'um mar infindo, Um pó de um outro pó que o envolveu?

Só tu! Na solidão, sobre os desertos, Tu só te ergues altiva, e apontas céos; E deixas, sobranceira ás tempestades, Rugir de um mar de areia os escarcéos!

Coimbra, Dezembro, 1859.