Portuguese poem
Anima Mea
Estava a Morte alli, em pé, diante, Sim, diante de mim, como serpente Que dormisse na estrada e de repente Se erguesse sob os pés do caminhante.
Era de ver a funebre bacchante! Que torvo olhar! que gesto de demente! E eu disse-lhe: «Que buscas, impudente, Loba faminta, pelo mundo errante?»
--Não temas, respondeu (e uma ironia Sinistramente estranha, atroz e calma, Lhe torceu cruelmente a bocca fria).
Eu não busco o teu corpo... Era um tropheu Glorioso de mais... Busco a tua alma-- Respondi-lhe: «A minha alma já morreu!»
Divina comedia
(Ao Dr. José Falcão)
Erguendo os braços para o céo distante E apostrophando os deuses invisiveis, Os homens clamam:--«Deuses impassiveis, A quem serve o destino triumphante,
Porque é que nos criastes?! Incessante Corre o tempo e só gera, inestinguiveis, Dor, peccado, illusão, luctas horriveis, N'um turbilhão cruel e delirante...
Pois não era melhor na paz clemente Do nada e do que ainda não existe, Ter ficado a dormir eternamente?
Porque é que para a dor nos evocastes?» Mas os deuses, com voz inda mais triste, Dizem:--«Homens! porque é que nos criastes?»
Espiritualismo