Versos Portuguese Antero de Quental Logos

Portuguese poem

Logos

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(Ao snr. D. Nicolau Salmeron)

Tu, que eu não vejo, e estás ao pé de mim E, o que é mais, dentro de mim--que me rodeias Com um nimbo de affectos e de ideas, Que são o meu principio, meio e fim...

Que estranho ser és tu (se és ser) que assim Me arrebatas comtigo e me passeias Em regiões innominadas, cheias De encanto e de pavor... de não e sim...

És um reflexo apenas da minha alma, E em vez de te encarar com fronte calma, Sobresalto-me ao ver-te, e tremo e exoro-te...

Falo-te, calas... calo, e vens attento... És um pae, um irmão, e é um tormento Ter-te a meu lado... és um tyranno, e adoro-te!

Com os mortos

Os que amei, onde estão? idos, dispersos, Arrastados no gyro dos tufões, Levados, como em sonho, entre visões, Na fuga, no ruir dos universos...

E eu mesmo, com os pés tambem immersos Na corrente e á mercê dos turbilhões, Só vejo espuma livida, em cachões, E entre ella, aqui e ali, vultos submersos...

Mas se paro um momento, se consigo Fechar os olhos, sinto-os a meu lado De novo, esses que amei: vivem commigo.

Vejo-os, ouço-os e ouvem-me tambem, Juntos no antigo amor, no amor sagrado, Na communhão ideal do eterno Bem.

Oceano Nox

(A A. de Azevedo Castello Branco)

Junto do mar, que erguia gravemente A tragica voz rouca, em quanto o vento Passava como o vôo d'um pensamento Que busca e hesita, inquieto e intermittente,

Junto do mar sentei-me tristemente, Olhando o céo pesado e nevoento, E interroguei, scismando, esse lamento Que sahia das cousas, vagamente...

Que inquieto desejo vos tortura, Seres elementares, força obscura? Em volta de que idea gravitaes?--

Mas na immensa extensão, onde se esconde O Inconsciente immortal, só me responde Um bramido, um queixume, e nada mais...

Communhão

(Ao snr. João Lobo de Moura)

Reprimirei meu pranto!... Considera Quantos, minh'alma, antes de nós vagaram, Quantos as mãos incertas levantaram Sob este mesmo céo de luz austera!...

--Luz morta! amarga a propria primavera!-- Mas seus pacientes corações luctaram, Crentes só por instincto, e se apoiaram Na obscura e heroica fé, que os retempera...

E sou eu mais do que elles? igual fado Me prende á lei de ignotas multidões.-- Seguirei meu caminho confiado,

Entre esses vultos mudos, mas amigos, Na humilde fé de obscuras gerações, Na communhão dos nossos paes antigos.

Solemnia Verba

Disse ao meu coração: Olha por quantos Caminhos vãos andámos! Considera Agora, d'esta altura fria e austera, Os ermos que regaram nossos prantos...

Pó e cinzas, onde houve flor e encantos! E noite, onde foi luz de primavera! Olha a teus pés o mundo e desespera Semeador de sombras e quebrantos!--

Porém o coração, feito valente Na escola da tortura repetida, E no uso do penar tornado crente,

Respondeu: D'esta altura vejo o Amor! Viver não foi em vão, se é isto a vida, Nem foi de mais o desengano e a dor.

O que diz a Morte

Deixai-os vir a mim, os que lidaram; Deixai-os vir a mim, os que padecem; E os que cheios de magua e tedio encaram As proprias obras vans, de que escarnecem...

Em mim, os Soffrimentos que não saram, Paixão, Duvida e Mal, se desvanecem. As torrentes da Dor, que nunca param, Como n'um mar, em mim desapparecem.--

Assim a Morte diz. Verbo velado, Silencioso interprete sagrado Das cousas invisiveis, muda e fria,

É, na sua mudez, mais retumbante Que o clamoroso mar; mais rutilante, Na sua noite, do que a luz do dia.

Na mão de Deus

(Á Ex.^{ma} Snr.^a Victoria de O. M.)

Na mão de Deus, na sua mão direita, Descançou a final meu coração. Do palacio encantado da Illusão Desci a passo e passo a escada estreita.

Como as flores mortaes, com que se enfeita A ignorancia infantil, despojo vão, Depuz do Ideal e da Paixão A forma transitoria e imperfeita.

Como criança, em lobrega jornada, Que a mãe leva ao collo agasalhada E atravessa, sorrindo vagamente,

Selvas, mares, areias do deserto... Dorme o teu somno, coração liberto, Dorme na não de Deus eternamente!