Versos Portuguese António Duarte Gomes Leal *Phantazia D'Um Aborrecido*

Portuguese poem

*Phantazia D'Um Aborrecido*

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Eu vivo só das multidões distante, E tenho um tom solemne grave e emphatico, Amo Flaubert, Gostavo Droz e Dante, Sou mysanthropo, hysterico e limphatico.

Sou phantastico, altivo, e caprixoso, E tenho uns paradoxos meus protervos... E entre elles conto um livro volumoso... Em que explico o Remorso pelos nervos.

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Ás vezes vou pensando, ó tranças negras! Quebrados, sensuaes olhos celestes! Que has de ainda, entre as plantas verde-negras, Morar debaixo, um dia, dos cyprestes!

E n'esses braços lisos, indolentes, Hão de os vermes travar a escura guerra, Hão de infundir pavor, inda, esses dentes, E de beijos fartar-te a immunda terra!

Teu rir sem labios meterá assombros --Ó tu que fazes rastejar as lyras! E serão ossos nús teus lisos hombros, Costumados ás leves cachemiras.

Que vezes scismo, assim quando tu passas, E eu estou fumando ás portas dos cafés, E que insultas as lepras e as desgraças, Coberta de velludos e plaquets!

E eu penso ó corpo esculptural, perfeito! Ó corpo de Phryné cheio de graça! Que has de ainda ser putrido e desfeito, E tomar-te azotato de potassa!

E não terás então, ó minha impura! Serenadas debaixo das janellas, E escondida no pó da sepultura Terás medo dos olhos das estrellas!

Hontem, rojando estofos ruidosos, Inclinada e indolente sobre o braço, Comtemplavas com olhos cubiçosos, As contorsões e saltos d'um palhaço.

E eu suffocando dentro os meus anhelos, Soluçava d'amor, ó crua filha, E exaltava-me o olor dos teus cabellos, Onde escorrem perfumes de Manilha.

Mas eu heide vingar-me, ó tranças negras! Ó cansados, mortaes olhos celestes! Quando fores, nas plantas verde negras, Morar debaixo, um dia, dos cyprestes!

Quando morreres, meu botão d'um dia! Açucena que puz no peito o abrir! Farei da tua tez fina e macia Um prosaico barrete de dormir!

Farei da tua trança azevichada Um cachenez, por causa dos catarros E será no teu craneo, ó minha amada! Que eu deitarei as pontas dos cigarros!

D'essa carne farei abertas rosas Que enganarão as brancas borboletas! E teus olhos, em jarras preciosas, Olharão, como duas violetas.

Farei da boca um cravo, que no fraque Porei sempre que saia de passeio... E mandarei fazer um almanak Na pelle encadernado do teu seio!

Forrarei as paredes do meu quarto Com tuas longas cartas de namoro... E ali passearei de illusões farto, Como o avaro no meio do seu ouro!

E então tu serás minha, ó tranças negras! Quebrados, sensuaes olhos celestes! Quando fores, nas plantas verdes negras, Morar debaixo, um dia, dos cyprestes!