Portuguese poem
A Justino De Montalvão
by António Pereira Nobre (1867–1900)
Em St. Maurice (aqui perto) ha um convento De Franciscanos. Fui-me lá ha dias. Quando eu entrei, tocava a Avè-Marias. Iam ceiar. Fóra mugia o vento.
Um pallido Christo, ao fundo da sala, Espalha em redor seu alvo clarão; E, quando se reflecte a Cruz pelo chão, Os frades ingenuos não ousam pisal-a.
«Meu irmão...» disseram, ao verem-me á porta. Vontade, Senhor, tive eu de chorar! Tão só me sentia, pela noite morta...
E quando na volta, á luz das estrellas, Meu doido passado me vim a evocar, Pensei no perdão d'uma alma d'aquellas.
Bex, junho, 1896.
10
Senhora! a todas as novenas ides, E porque vós lá ides, vou tambem. É um descanço sem par ás minhas lides, Aos meus males, e em summa faz-me bem.
Essas graças que tendes (vós sorrides?) Só nas flôres as vejo, em mais ninguem. Se o vosso corpo é magro como as vides, Os cachos d'uvas que o cabello tem!
Fazeis-me andar n'uma continua roda, Pelas igrejas da cidade toda, S. Luiz de França, Encarnação e mais.
Senhora! assim commigo em beato dais, Faço-me frade e vou para um convento... E adeus! que lá se vae o cazamento!
Lisboa, janeiro, 1897.
11
Ha já duzentos soes, ha quatro luas, Que te pedi que a Igreja abandonasses. Tu és cruel, Senhora! continúas, Como se agora apenas começasses.
Á sexta-feira e ao sabbado jejuas, E tanto te pedi que não jejuasses. E o que dóe mais, Senhora, é que insinuas Em voz que tanto dóe: «Se me imitasses...»
Nenhuns peccados tens. És anjo e santa. Boa como o ceu, simples como a planta, Cozes p'ros pobres, fazes boas-obras!
Quaes são os teus peccados? peccadores Senhora! são os vossos confessores. Homens e basta: são máos como as cobras!
Lisboa, 1897.
12
Monologo d'Outubro