Portuguese poem
A Martinho De Brederode
by António Pereira Nobre (1867–1900)
Quando cheguei aqui, dizia baixo o povo Pelas ruas, vendo-me passar: --Vem tão doentinho, olhae! e é ainda tão novo... E assim sósinho, sem ninguem para o tratar! (Que boa a Suissa! que bom é este povo!)
Raparigas de luar, pastoras d'estes Andes, Diziam entre si: Quem será este senhor? Todo de preto, tão pallido, olhos tão grandes! E rezavam por mim, baixinho, com amor. (Ó pastoras tão meigas d'estes Andes!)
Por fim entrei receoso em uma caza immensa Com Jezus-Christo ao fundo e velas e alecrim. Treme-me ainda hoje a minha alma se n'ella pensa: Rezas... doentes... ais... corredores sem fim!... (Ah que tristeza a d'essa caza immensa!)
No alto da escada umas Irmãs da Caridade Vieram, a sorrir, perguntar: «Como vae?» No olhar d'ellas (tão doce!) havia tal bondade, Que me julguei feliz, até sorrir, olhae! (Minhas boas Irmãs da Caridade!)
Uma dellas guiou-me ao quarto onde a paysagem Ante meus olhos se estendia e os deslumbrou... --«E então como passou? Gostou da sua viagem? E a Nossa-Suissa que tal acha, não gostou?» (Ó Suissa da divina paysagem!)
Não me deixava com perguntas. Era Suissa E não deixara nunca esta alva nação. Ignorava o que era a Verdade, a Justiça: Tudo n'ella era instincto, innocencia e perdão. (Que ingenua és ainda, Suissa!)
--Vá, quero que me diga o seu nome, primeiro E depois d'onde vem, quem é... pelo fallar... --Venho da beira-mar, e sou um marinheiro. E ella tornou-me: O mar! eu nunca vi o mar! (Nos meus olhos o viste tu primeiro.)
Com que doçura, com que mimo e com que graça Me arranjou tudo! Até meu leito quiz abrir. E como uma ama diz ao menino que a enlaça, Disse-me: «Boas noites. Faça por dormir!...» (Ó Suissa cheia de graça!)
E eu assim fiz. Adormeci, feliz, sereno, E no outro dia eu já estava melhor. Passados trez, passei de pallido a moreno Passado um mez, «não é nada» disse o doutor. (Oh! quanto eu era então feliz, sereno!)
E a boa Irmã toda contente e dedicada Que sempre estava á escuta em biquinhos de pé --Vê, tantos sustos! e afinal não era nada! E se elle disse «não é nada» é que não é! (Ó boa Irmã, de voz tão delicada!)
Fallou verdade o bom doutor. Ergueu-se em breve A minha doida mocidade arrependida. Bemditos sejaes vós, Alpes cheios de neve! Bemditos sejaes vós que me salvaste a vida! (E o meu coração que dôce paz vos deve!)
Bemdita sejas tu, ó Suissa meiga e boa! Gloriosa entre os mais povos, sê bemdita! Bemdita sejas tu, de Christiania a Lisboa! Bemdita sejas tu entre as nações, bemdita! (Bemdita sejas, minha Suissa boa!)
Lausanna, 1896.
Confissão d'uma rapariga feia