Portuguese poem
A Meu Irmão Augusto
by António Pereira Nobre (1867–1900)
Outomno, meu Outomno, ah! não te vás embora! Ás minhas, eu comparo as tuas extranhezas. Ah! nos teus dias não ha Julhos nem aurora, E só crepusculos... Crepusculos são tristezas!
E tu que já passaste o Outomno só commigo Não pensas ao cahir de tantas agonias Nas minhas, que tu sabes, ó meu melhor amigo? Cahi, folhas, cahi! tombae melancholias!
Ides morrer, folhas! mas morrer que importa? Lá vae mais uma... mal nasceu e já vae morta. Levaes saudades? Coitadinha, sois tão nova!
Tendes razão? Nem sei a fallar a verdade. Tombar quizera eu, só p'ra esquecer. Saudade, Irmão, não a terei tambem, lá pela cova?...
Foz, 1897.
13
Pedi-te a fé, Senhor! pedi-te a graça, Mas não te curvas nunca, p'ra me ouvir. Tudo acaba no mundo... tudo passa, Mas só meu mal se foi e torna a vir.
Não busco a morte com arma ou veneno, Mas emfim póde vir quando quizer. Eu estarei de pé, firme e sereno, Sorrir-lhe-hei até, quando vier.
Tristes vaidades d'este pobre mundo! Já me parecem taes como ellas são: Tristes mizerias deste mar sem fundo.
Se tive algumas eu, na mocidade, Não foram ellas mais que uma illuzão. E um dia eu ri da minha ingenuidade!
Lisboa, janeiro, 1898.
14
O mar que embala, ás noites, o teu somno É o mesmo, flor! que á noite embala o meu. Mas em vão canta a minha ama do Outomno, Pois pouco dorme quem muito soffreu.
Mas tu feliz qual rainha sobre o throno, Dormes e sonhas... no que, bem sei eu! O teu cabello solto ao abandono, As mãos erguidas de fallar ao céo...
Feliz! feliz de ti, doce Constança! Reza por mim, na tua voz chymerica, Uma Avè-Maria de Esperança!
Por minha saude e gloria (Deus m'a dê) Por essa viagem que vou dar a America... Quando, um dia, voltar, dir-te-ei porquê!
Ilha da Madeira, maio, 1898.
15
Mamã
Toda a Paz, todo o Amor, toda a Bondade, Toda a Ternura que de ti me vêm, Amparam-me esta triste mocidade Como nos tempos em que tinha Mãe.
Quanto eu te devo! Odios, impiedade, Indignações e raivas contra alguem, Loucuras de rapaz, tedios, vaidade, Tudo isso perdi--e ainda bem!
Salvaste-me! Trouxeste-me a Esperança! Nunca m'a tires não, linda criança, (Linda e tão boa não o farás, talvez!)
Pois que perder-te, meu amor, agora, Ai que desgraça horrivel! isso fôra Perder a minha Mãe, segunda vez.
Ilha da Madeira, 1898.
16
Ha vinte annos já, que andas na Terra, Ha vinte dias só, que te conheço! Eu andava perdido pela serra, E o que eu era então, já não pareço.
Ha vinte dias só que te conheço, Ó meu beijo de Luz! minha Chymera! És a Graça de Deus (com qu'estremeço) Talvez, o que no mundo, inda me espera.
Sonho da minh'alma! Ó meu ceu d'estio! Pois não tens piedade d'este frio Que sinto em mim, na minha solidão!
Minha bençam de Christo, promettida, Não serás tu a Paz da minha vida? Oh! não me digas não, que és Illuzão!
Quinta Almeida. Funchal, abril, 1898.
17
Riquinha
Soffrer callada as suas proprias dôres E chorar como suas as dos mais, Tal a Rainha do seu nome, em flôres Transforma pedras e em sorrisos ais.
A toda a parte leva o sol e amores, É a Saude dos Enfermos nos Cazaes; E, no mar-alto, os velhos pescadores Invocam-n'a entre espuma e temporaes!
Quem será ella, tão piedoza e dôce! Com uns taes olhos que não tinha visto Será a Virgem? Oxalá que fosse!
Oh! flôr mais bella do jardim d'esta Ilha! Fôra outrora, talvez, filha de Christo, Se Christo houvesse tido alguma filha!
Ilha da Madeira, 1898.
18
O Teu Retrato
Deus fez a noite com o teu olhar, Deus fez as ondas com os teus cabellos; Com a tua coragem fez castellos Que poz, como defeza, á beira-mar.
Com um sorriso teu, fez o luar (Que é sorriso de noite, ao viandante) E eu que andava pelo mundo, errante, Já não ando perdido em alto-mar!
Do ceu de Portugal fez a tua alma! E ao vêr-te sempre assim, tão pura e calma, Da minha Noite, eu fiz a Claridade!
Ó meu anjo de luz e de esperança, Será em ti afinal que descança O triste fim da minha mocidade!
Ilha da Madeira, junho, 1898.
19
Sestança
Ia em meio da minha Mocidade, Perdido d'affeições, ao vento agreste, Quando na Vida tu me appareceste, Sestança, minha Irmã da Caridade!
Ninguem de mim dó teve, nem piedade, Ninguem n'a tinha, só tu a tiveste: Quantas velas á Virgem accendeste! Quantas rezas nos templos da cidade!
Que te fiz eu, Espelho das Mulheres! Para assim merecer um tal cuidado E tudo quanto ainda me fizeres?
Bemdito seja Deus que me escutou! Bemdito seja o Pae que te ha procriado! Bemdita seja a Mãe que te gerou!
Ilha da Madeira. Quinta da Saude, 29-7-1898.
20
Emilias