Versos Portuguese Augusto Gil (A Abilio Da Fonseca)

Portuguese poem

(A Abilio Da Fonseca)

by (1873–1929)

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Como os mergulhadores orientaes Que ao leito das ondinas vão roubar As perolas fulgentes, virginaes, Sondei o negro abysmo d'esse olhar.

No pelago vastissimo do mar Mergulham elles, muita vez em vão; Pois eu, mulher, roubei ao teu olhar --A perola sem par d'esta paixão...

Ignotus

Ninguem sabia ao certo quem elle era, O bondoso pastor do presbyterio. A terra onde nasceu? D'onde viera? --Em vão se investigava tal mysterio.

Andava sempre só. Pelos caminhos Encontravam-n'o, á tarde, muitas vezes, Parado, a ouvir a musica dos ninhos Ou as joviaes canções dos camponezes.

O signal do seu livro de orações, Um dia que passava, absorto, a lêr, Cahiu perto d'um grupo d'aldeões.

Um velho ao apanhar-lh'o reparára: --Era um retrato antigo de mulher D'uma belleza peregrina e rara.

Nec semper

São gemeas a Verdade e a Belleza, Disse-me um grande sabio n'outro dia. Se elle te conhecesse, com certeza, Tamanha falsidade não diria.

Pois tu oh formosura incomparada A quem o meu amor ardente aspira, Sendo a propria Belleza humanisada --És a synthesis viva da Mentira!

Combate

Fazer versos delirantes Ao teu frio coração É como engastar diamantes N'um ad'reço de latão;

Comtudo meus versos são Tiros certeiros, constantes, Ao teu frio coração, Aos teus desdens provocantes,

N'esta singular batalha Não sei mesmo quem mais valha, Qual de nós seja a vencer.

N'esta campanha secreta Entre o amor d'um poeta --E o desdem d'uma mulher!

Nostalgica

O amor é chamma enorme que allumia E nos consome e gasta o coração. Uma faúlha o ateia--a sympathia, Termina em labaredas--a paixão.

Tanto é maior a luz que elle irradia, Quanto intensa é depois a escuridão. A indifferença é como a cinza fria Que fica d'essa lenta combustão.

Senhora a quem amei perdidamente, Não me entristece o seu desdem mordente, Já nada me preoccupa, nem me importa...

Porque, desde que vós me não amaes, O meu corpo doente não é mais --Que a tumba viva da minh'alma morta...

Irmã da caridade