Portuguese poem
(A Egas Moniz)
by Augusto Gil (1873–1929)
Na sala de jantar da baroneza A conversa cahira mollemente, E um creado esguio, sorridente, Trazia sobremeza.
Os commensaes fallavam sobre a vida. --Viver é ir morrendo lentamente-- Dizia suspirando, em voz sentida. Um lyrico doente.
A vida, accrescentou, volvendo os olhos, Um bacharel vermelho, de melenas: --É um jardim de lirios e de abrolhos De cardos e verbenas...
Continuou depois solemnemente Um outro, litterato, de lunetas, Com fama de escriptor intelligente, Auctor de varias tretas:
--A vida é a viagem d'alguns dias: Uns seguem n'ella a estrada dos revezes, Outros a do prazer. As duas vias Encontram-se por vezes...
O barão quasi calvo, de olhar vago, Disse a sorrir, curvado na cadeira: --A vida é isto. E despejou d'um trago Um calix de Madeira.
Ao fundo, um par de jovens namorados Fazia brindes intimos de amor E a digestão punha nos convidados Um languido torpor.
Ouviu-se então, em voz de confidencia, Dizer á baroneza um titular: --Minha Senhora, creia-me Vocencia, A vida--é esse olhar...
Carmen
Sobre as dobras rendadas da mantilha Brilham-te, como soes em pleno dia, Os olhos mais galantes de Sevilha Na fronte mais gentil d'Andaluzia.
A tua voz ao som da guitarrilha Tem vibrações extranhas d'harmonia. Ninguem canta melhor a seguidilha N'esse paiz do Amor e da Alegria.
Nas voltas caprichosas do bolero Não tens rival em graça e em salero Carmen gentil, oh flôr das hispanholas!
Tu fazes-me o effeito inebriante Dos vinhos de Xerez e de Alicante Quando bailas ao som das castanholas!
Fervet amor
A conversa cahiu no casamento. E defronte de nós, n'esse momento, Noivava um par alegre de pardaes.
Ruborisada, attenta, olhaste os dois. Em que meditas? disse, e tu depois, Baixando o doce olhar--coraste mais.
Cantares