Portuguese poem
(A Ramiro De Figueiredo)
by Augusto Gil (1873–1929)
A triste viuvez tua, Creança de olhos suaves, Lembra-me as noites sem lua, Lembra-me os ninhos sem aves.
Tão bonita e sem amores, Á minha mente recordas Uma jarra sem ter flores Um bandolim sem ter cordas.
Oh meiga rôla sem par, Á phantasia revelas Uma barca em pleno mar Sem ter leme e sem ter velas.
Moreninha idolatrada Que o loiro Amor não seduz, És como estrella apagada És como um astro sem luz;
És como um cofre doirado Cheio de gemas d'Ophir, Por tal maneira fechado Que ninguem o possa abrir.
Oh virgem de negra coma, Oh minha doce gazella, És como flor sem aroma Como moldura sem tela,
Galathea que amo tanto, Meu amor, peccados meus, És um altar sem ter sancto --Um paraizo sem Deus!
Senhor Doutor
Não ha quem endoide as moças Como os olhos d'um doutor. (Cantiga coimbrã).
Houve na aldeia viva sensação Ao regressar o filho do morgado, Que fôra para Coimbra de calção E vinha agora bacharel formado.
Vae longe, olé, bradava o vozeirão Do abbade. É só fazel-o deputado. E as moças entre si: Que rapagão!... ... Doutor, tão novo... Deus seja louvado...
Chegou a casa e n'esse mesmo dia, Foi visitar radioso de alegria A filha da velhota que o creou.
E visitou-a tanto e tantas vezes Que quando decorreram nove mezes --O morgado da aldeia... era avô.
Ritornello