Portuguese poem
Ii
by Augusto Gil (1873–1929)
É fria como a neve sobre o polo E pura como uma alma de creança. Olha uma rocha como olha um collo; E-lhe estranha a tormenta ou a bonança.
Nem lhe estremece o labio virginal Ao beijar a nudeza de Jesus, O grande martyr, sonhador ideal Que expira mansamente n'uma cruz.
Quando morrer na cella do mosteiro, Á cova n'um esquife hão de leval-a; Serão então os braços do coveiro --Ultimos e primeiros a abraçal-a...
Abril
Enorme, arredondado, reluzente, Como se fôra um olho de Titan, O sol no azul olhava fixamente A natureza lubrica, pagã.
E á luminosidade transparente Do céu avelludado da manhã, Um melro ia cantando alegremente Uma canção brejeira e folgazã.
Nuvens de fumo tenues, vaporosas, Evolavam-se em fórmas caprichosas Das chaminés esguias dos casaes.
E em choreação festiva, galhofeira, Ouvia-se nas bandas da ribeira Um concertante alegre de pardaes..
Aldeã
Podem dizer talvez que ella não tem As fórmas peregrinas, delicadas, Das cortezãs de peito de cecem Que vão á noite aos bailes, decotadas.
Podem dizer talvez, e dizem bem, Que ás suas faces tumidas, rosadas, Falta a côr macilenta que convém Ás virgens dos sonetos e balladas.
Á elegancia doente e vaporosa Eu prefiro, comtudo, a fórma airosa Do seu corpo gentil de mulher sã;
Por isso adoro e préso mais que tudo Os seus olhos dolentes de velludo, Os seus labios vermelhos de romã.
Amor omnia vincit