Versos Portuguese Auta de Souza Ao pé de um berço

Portuguese poem

Ao pé de um berço

by (1876–1901)

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Meu coração é um ramo Onde teci o teu ninho; Dorme nelle, gaturamo, O’ sonho branco de arminho!

Dorme, dorme; de mansinho Vou te embalando a cantar... Esconde as azas no ninho, Não quero ouvir-te chorar.

Fecha os olhos docemente E vôa longe da terra, Dorme o teu somno innocente, O’ nivea pomba da serra!

Dorme, santinho, as estrellas Virão cobrir-te com um véo; Não chores se queres vel-as Fazer de teu berço um céo.

Foge da noite aos abrolhos Neste celeste abandono; Eu guardo um sonho nos olhos Para dourar o teu somno.

Olha, meu santo, Jesus, Que tanto amava os meninos, Vela sorrindo da Cruz O somno dos pequeninos.

E a Mãe do Céo, nos espaços Deixando de luz um trilho, Traz o filhinho nos braços Para beijar-te, meu filho!

Recebe o carinho amigo E pede ao rei do Universo Que fique a sonhar comtigo, Dormindo no mesmo berço.

As duas mães, n′um sorriso, Sobre o ninho velarão... E eu direi ao Paraiso, Baixinho no coração:

Qual dos dois mais luz encerra, Envoltos no mesmo véo: O filho da mãe da terra? O filho da mãe do Céo?

Dorme, bonina nevada, Emquanto eu velo a cantar; Guia-me á patria adorada, O’doce estrella do Mar!

Dorme e não chores, creança! A Lua do Céo sorri — Na vida sem esperança Eu hei de chorar por ti.