Portuguese poem
Ciume
by Auta de Souza (1876–1901)
Não brinques ao sol, menina! É tão preto o teu cabelo, Que exposto ao sol que ilumina, Jamais, jamais quero vê-lo.
Não sabes por que, Maria?... Do sol o brilhante açoite Só vem à terra de dia Porque não gosta da noite.
E eu temo que ao ver formoso O teu cabelo, um tesouro! O sol, que é tão invejoso, Não queira torná-lo louro.
Louro, Maria! o repouso Onde vacilo com a cruz, O doce abrigo onde pouso Meus olhos fartos de luz?
Não quero, flor de minh’alma, Linda esperança em botão... O dia não é que acalma As mágoas do coração.
Quando a dor em fúria brusca Lhe vem magoar o seio, A treva da noite busca Para chorar sem receio.
E a minha noite mais pura No teu cabelo é que eu vejo; Esqueço toda a amargura Se a tua cabeça beijo!
E agora, santa, avalia Que pena teria eu Se chegasse a ver um dia O teu cabelo, Maria, Da cor dos astros do céu!
Nova Cruz - Novembro - 1897.