Portuguese poem
Dadá
by Auta de Souza (1876–1901)
Dadá tinha um filhinho muito louro, Tão louro como um raio de luar. Aquela criancinha era o tesouro, O imaculado encanto do seu lar.
Dadá o amava tanto que no mundo Su’alma em cousa alguma achava brilho. Nada alterava aquele amor profundo: Só via o berço onde sonhava o filho.
Quanto cuidado e que afeição tão santa! A areia onde brincando ele corria, Se ela pudesse (ah! se não fosse tanta!) Mesmo dentro do seio a guardaria.
Desejava que a terra fosse um ninho Habitado por ela e os seus amores; Queria mais que o buliçoso anjinho Só visse o céu e só pisasse em flores.
Pois se ele era o sorriso de seus olhos Desde que o esposo para o Além se fora! Se era a luz que surgia entre os abrolhos De su’alma tristonha e sofredora!
Sorrindo a mãe dizia olhando a terra E o casto manto azul de lá do céu: “Sois muito lindo, mas nenhum encerra Jóia mais linda do que o filho meu.”
E tinha bem razão. O seu Laurinho, Aquela criatura tão franzina, Guardava lírios brancos no rostinho E uma rosa na boca pequenina.
Não consentia que ele um só minuto Dos cuidados maternos se afastasse: Era um contraste a sombra de seu luto Na alvura virginal d’aquela face!
E se às vezes a garrula criança Disparava a correr jardim a fora. Dadá pensava que sua esperança Ia fugindo ou que morria a aurora...
Então cismava cheia de receio, Como se o seu filhinho mais não visse: E se alcançava, comprimia-o ao seio, Temerosa que ainda lhe fugisse..
Se ele morresse, o que seria d’ela? Dadá cuidava às vezes tristemente - Se essa criança era como a estrela Que guiava os Reis Magos no Oriente?
E entre esperanças e temores francos, Lauro crescia cada vez mais lindo; Quando falava, os seus dentinhos brancos Lembravam à gente um bogari abrindo.
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Antes do sol pender sobre o horizonte O querubim cessava de existir; E alguém ainda lhe beijava a fronte: Era Dadá a soluçar e a rir.
Estava louca. D’ora em diante, a vida, Quem lhe traria ao ninho seu deserto? Lauro morrera... Branca flor pendida Caíra murcha num esquife aberto!
Ela bem vira quando carregavam O meigo arcanjo dentro de um caixão... Almas cruéis! Do seio lh’o arrancaram E com ele também seu coração!
Há muitos anos que isto sucedeu, Mas, entretanto, o que da morte a salva É que Dadá, quando contempla o céu, Diz que seu filho está na estrela d’Alva.