Portuguese poem
Loli
by Auta de Souza (1876–1901)
O caixãosinho tem a côr divina Do mundo immenso, onde Jesus habita, E o frio corpo da gentil menina Repousa n’elle entre jasmins e fita.
Seu cabellito, perfumado e loiro, Cobriam todos de cheirosas flores... Traz-nos a mente, sepultado em dores, Um encantado e virginal thesoiro.
Todos soluçam, meigos, contemplando O esquife santo que caminha ali. Beijos saudosos em formoso bando Voam, gemendo, a procurar Loli.
O’ creancinha, ó pequenina aurora! Descerra as folhas, açucena amiga! Rosa adorada que o tufão desliga Da haste mimosa, quem te beija agora?
Mas já não ouve, o pobre sonho morto... Tão longe o esquife! ninguem mais o alcança... Barco celeste, vai levando ao porto O corpo amado d’esta flor creança.
·
E branca, e branca como um lirio puro, Na sua alvura virginal de neve, Loli, no esquife pequenino e leve, Lá foi caminho do sepulcro escuro.