Portuguese poem
O coração e o beijo
by Auta de Souza (1876–1901)
Meu coração chorava e eu lhe dizia: Por que choras assim, pobre criança? E o triste, a soluçar, me respondia: Ninguém pode viver sem Esperança.
Tu tens a Fé. - A Fé? Mas, o que é d’ela Sem da Esperança as ilusões serenas? Um céu à noite sem nenhuma estrela, Um’alma em flor sem um sorriso apenas...
- Mas tens a Caridade. - A Caridade? Ah, sim! o vinho que embriaga a dor. Mas eu não amo... Pois, não é verdade Que a Caridade é o que se chama - Amor?
Nisto passava uma criança linda, Botão de lírio, imaculado e santo. Meu coração que soluçava ainda Sorriu ao ver o melindroso encanto.
E foi beijar-lhe os pequeninos lábios, Folhas de rosa abrindo de manhã, Onde adejavam místicos ressabíos Dos beijos de uma mãe e de uma irmã...
Compreendeu, então, o desolado A linguagem sublime d’esse harpejo: Neste mundo de lágrimas povoado, A Caridade pode estar num beijo!