Versos Portuguese Camilo Castelo Branco Impressoens

Portuguese poem

Impressoens

by (1825–1890)

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D'UM PASSEIO, NO JARDIM DE S. LAZARO.

Que delicias não encerra Esta bem fadada terra N'um domingo, em mez d'Abril! Nem eu sei se a natureza Deu mais pompas a Veneza, Que no mar reina gentil.

Não na ha terra mais linda Nem sonhal-a eu pude ainda Nos meus sonhos da manhan. Uma só os dons lhe abate, És só tu, patria do vate, Donairosa Campanhan!

Mas, aqui, terra das auras, Espontaneas brotam Lauras Por entre sacas d'arroz. E, quaes ferteis cogomelos, Nascem Dantes de chinelos, E Petrarcas d'albornoz.

Tudo vai do ceo formoso, Que derrama ondas de goso Nestas almas d'alfinim. Ouem não viu anjos de saia, Serafins d'alva cambraia No fantastico jardim?

Inda, ha pouco, eu vi delicias Invejei doces caricias, Que lá vi... oxalá não! Entre tantas a mais bella, A rainha... ai! era ella... D. Eusebia d'Assumpção!

Ella sempre!.. espectro! larva Por quem fiz esta alma parva, Por quem dei cavaco até! E tão linda!.. impia cegonha, Tão folhuda!.. era uma fronha, Um travesseiro de pé!

E, tão tolo, eu quiz fallar-lhe Quiz mysterios revelar-lhe Deste amor, desta agonia; Quiz dizer-lhe em voz terrivel, Com rancor inconcebivel: «Passou bem? que bello dia!»

Não me ouviu, virou-me a cara, E eu jurei vingança avara, E a vingança... oh! eide-a ter! Não te rias, lagarticha, Eide atirar-te uma bicha, Eide vêr-te a fralda a arder.

Feito o horrivel juramento, N'aquelle acerbo momento Dona Eusebia me esqueceu!.. Procurei entre outras flores Nova fé, novos amores... Poderia achal-os eu?

Dona Eustaquia era formosa, Tinha os dentes côr de rosa, Meigos olhos de marfim; Tinha o collo verde-gaio, Lindos braços cor de paio, Lindas mãos de marroquim.

Mas Eustaquia não podia, Conceber-me esta poesia, Que me escalda o coração! Ao pé d'ella estava um grulha, Um rival, um gêta, um pulha, Um palerma, um pelitrão.

A pretexto de meiguices, Vomitorio de sandices Era o tal... que eu não direi... O que eu fiz foi pôr-me ao largo, Pois luctar é sempre amargo Contra um estupido de lei.

Outra vi; julguei-a vaga; Era Dona Saramaga, D'olhos garços de matar. De cabello em grande rôlo, Sua testa era um rebôlo, Mas rebôlo de encantar!

Esta sim: ouviu-me as fallas, Conheceu que estava em tallas Meu dorido coração. Deu me affectos desvellados, Deu-me quatro rebuçados Com sensivel emoção!

Perguntou-me se a Geordano Ficaria para o anno, Ou iria p'ra Pariz. Respondi-lhe que a cantora, Por em quanto, era senhora Da garganta e do nariz.

Dito isto (e não é pouco) Retirei-me quasi louco De paixão, que é de matar. Mas palpita-me que um dia, Consummida esta poesia, Pés de burro eide apanhar!

P. S.

O auctor desta obra é uma pessoa honesta, que reconhece Deus no ceo, e o ridiculo na terra. Não crê no representante de Deus entre os homens, por que não quer ultrajar a divindade; mas confessa que o demonio tem um representante em cada freguezia, sem attribuiçoens no codigo administractivo, mas funccionario muito superior aos regedores e juizes eleitos. O auctor accredita que o diabo não é tão feio como o pintam, e reputa-o, nas suas elevadissimas intuiçoens, como um espirito que se ri desentoadamente das muito parvas evoluçoens da humanidade. O auctor ousa declarar-se commissionado provisoriamente desse espirito do sarcasmo, e não poderá d'hora em diante irrogar injuria a quem lhe chamar «alma do diabo.» Conscio da missão que lhe é delegada, o auctor intenta uma publicação semanal, que será uma pagina que o Lucifer do seculo XX receberá da mão do Lucifer do seculo XIX. A geração, que vai levantar-se sobre os tumulos da geração que se esconde na grande valla d'uma epocha, virá estudar a nossa biographia nessa obra que o auctor intenta. Quem quizer assignar para ella fará um serviço aos seus netos.

PROSPECTO.

UM BICO DE GAZ.

JORNAL SEMANAL.

Assignatura por mez: 160 réis. O jornal é distribuido aos sabbados; e assigna-se

No Porto--em todas as lojas onde se vende este folheto; Lisboa, Coimbra, Vizeu, Lamego, Vianna, e Braga.

Admittem-se correspondencias que attinjam a missão rasgadamente civilisadora deste jornal. É preciso que a luz da intelligencia humana deixe de ser alimentada por azeite de purgueira. O espirito reclama um bico de gaz. E o auctor tem a vaidade de reputar-se o Hislop do mundo espiritual.