Portuguese poem
I
by Camilo Castelo Branco (1825–1890)
Dentro e fóra illuminado O palacio d'um barão, Fulgurante representa Um enorme lampião. Jorram lympidas vidraças Sobre as populosas praças Ondas tremulas de luzes. Vai lá dentro grande goso, Nesse alcaçar radioso Do barão dos Alcatruzes.
D'Alcatruzes é chamado, Porque, sendo ainda moço, Muitos baldes d'agua fresca Dizem que tirou d'um poço. Nenhum outro mais destreza Revellou na ardua empreza. De puchar acima um balde. Um que seja tão robusto Ha-de vir mui tarde e a custo, Do concelho de Ramalde.
É barão; não vale a pena Discutir-lhe os nobres feitos. É barão dos Alcatruzes Já tem pagos os direitos. Inda é mais; pois além d'isto É commendador de Christo Com bastante indiscripção. Mal diria Christo outr'ora, Que seria posto agora No peito d'um vendilhão!
E mais elle, que os tocava Com terrivel azorrague!.. Mas os Judas vendem Christo, Ponto é haver quem pague. E o barão dos Alcatruzes Neste seculo das luzes Tambem fez de farizeu: E, tambem, se é necessario, Representa de Calvario, Onde a cruz se suspendeu.
II.
N'um salão vasto, opulento, Um banquete se vai dar; Nos christaes reflecte o ouro, A fulgir, a scintillar. Os rubis, e a côr da opala Transfiguram esta sala Em olympicas mansoens. Mas a alma cae por terra, Quando vê que alli se encerra Duzia e meia de baroens.
Da terrina a caudal sopa Em silencio é devorada. Só então fingiram d'homens, Porque não disseram nada. Mas venceu a natureza! Um barão por sobre a mesa Estendendo o prato, diz: «Ó compadre! isto é qu'é bô! Venha sopa, e acabô! Cá de mim, torno á matriz!»
O barão de Cogumelos Junto estando á baroneza, Que se diz dos Sacatrapos, Quiz fazer-lhe uma fineza. Arrastou p'ra junto d'ella Um pirum, e a cabidela No prato lhe despejou. E lhe diz: «cá isto é nosso; Cousa que não tenha osso É p'ró estamago, e arrimou!»
Outro diz á gorda esposa, Que bem perto de si tem: «Bai-lhe bebendo po'riba, Ó mulher, come-lhe bem!» Este pede ao seu visinho: «Que lh'atice bem no binho Qu'é da belha companhia.» Diz aquelle ao seu fronteiro: «Que lhe chegue um frango inteiro E biba a sancta alegria!»
III.
As saudes já começam. É um gosto agora vêl-os. Estas caras representam Tomates de cotovêlos. E, a travez do escarlate Do legitimo tomate, Transsuda um oleo que brilha, Cada qual tem as orelhas Encarniçadas, vermelhas Como as azas d'uma bilha.
Pega no copo, e exclama O barão das Pimpinelas: «Vito serio! um home fala Sem preamblos nem aquellas! Á saude e alegria Desta bella companhia E com toda a estifação! P'ra que todos cá binhamos Estifeitos como bamos De casa do sôr barão!»
E os hurras retumbaram Pela sala do festim. Balthazar nos seus banquetes Não ouviu gritar assim! Sobre a mesa deram murros, Saudaram com grandes urros O barão dos Alcatruzes; Mas alguns com magua sua, Já cuidavam ver a lua, Não podendo vêr as luzes.
Mas, entre elles, um existe, Litterato em seu conceito. A palavra pede, e reina Um silencio de respeito. Elle diz: «Risonhas gallas Que refrangem n'estas salas Repercutem, symbolisam Acrimónias insoluveis, Nos acrósticos voluveis D'epopeas que eternisam. Pandemonios exhauriveis D'indeleveis congruencias. Requintados se escurecem Nos imporios das sciencias E liberrimos se escudam Nas façanhas que transsudam Em fantasiosas luzes. E, por tanto, a mais alludo, Quando, fervido, saudo O barão dos Alcatruzes!»
Succedeu o grito ao pasmo! Nunca se viu cousa assim! O orador foi abraçado Com furor, com frenezim! «Isto é qu'é!» dizia um, Convertido em rubro atum, Betarraba até não mais. «Viva Cissro!» outro dizia, Despejando a malvazia, Com grasnidos infernaes.
IV.
E a pandega findou. Mas alta noute, Disseram-nos fieis informaçoens; Que grande movimento ouve de tripas, E grande salto deram as torneiras Das pipas convertidas em baroens Ou antes dos baroens tornados pipas.