Versos Portuguese Camilo Castelo Branco Elogio Funebre

Portuguese poem

Elogio Funebre

by (1825–1890)

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A uma dama, prodigio de fecundidade, que dá á luz tres romances, por semana, nos jornaes do Porto.

Atafona de romances, És um carril a vapor! Romantisas quanto achas, E nos folhetins encaixas Com satanico furor.

Cornocopia da toleima! Nós fizemos-te algum mal? Tu não sabes, escriptora, Como zombam lá por fóra Das lettras de Portugal?

Não lucrara mais a patria, E lucráras tu tambem, Se fiasses n'uma roca. Com primor, a massaroca, Que desprezas, com desdem?

Não te fôra mais airoso Bispontar bem uns fundilhos Para em tempo competente Um remendo pôr decente Nas cuecas de teus filhos?

Mal tu sabes que sciencia Tem da meia o calcanhar! Talvez penses que o romance É mister de mais alcance Que nas meias pontos dar!..

Eu por mim antes quizera Nunca ter lido Camoens, Nem romances d'uma tola, Que vestir rôta a ciroula, Ou camisa sem botoens.

Accredito seja um dia A mulher emancipada; Ha-de então ser regedora, Escrivan, e contadora, Eleitora, e deputada.

Nesse tempo, se existisses, Tendo em vista essa pericia Com que ostentas teu saber, Que logar podias ter? Eras cabo de policia.

Tenho pena, quando penso Que serás formosa e meiga, E encontro os teus escriptos Nos embrulhos dos palitos Do toucinho, e da manteiga!

Faz-me dó, pois tu bem podes Bordar lenços de cambraia Com bonito petit-point; E, não sendo aqui ninguem, Podes, ser tudo na Maia.