Versos Portuguese Casimiro de Abreu (Pobre criança que te afliges tanto)

Portuguese poem

(Pobre criança que te afliges tanto)

by (1839–1860)

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Pobre criança que te afliges tanto Porque sou triste e se chorar me vês, E que borrifas com teu doce pranto Meus pobres hinos sem calor, talvez;

Deus te abençoe, querubim formoso, Branca açucena que o paul brotou! Teu pranto é gota de celeste gozo Na úlcera funda que ninguém curou.

Pálido e mudo e do caminho em meio Sentei-me à sombra sofredor e só! Do choro a baga umedeceu-me o seio, Da estrada a gente me cobriu de pó!

Meus tristes cantos comecei chorando, Santas endechas, doloridos ais... E a turba andava! Só de vez em quando Lânguido rosto se volvia atrás!

E louca a turba que passou sorrindo Julgava um hino o que eu chamava um ai! Alguém murmura: - Como o canto é lindo! - Sorri-se um pouco e caminhando vai!

Bendito sejas, querubim de amores, Branca açucena que o paul brotou! Teu pranto é gota que mitiga as dores Da úlcera funda que ninguém curou!

Há na minh'alma alguma cousa vago, Desejos, ânsias, que explicar não sei: Talvez - desejos - dalgum lindo lago, - Ânsias- dum mundo com que já sonhei!...

E eu sofro, oh anjo; na cruel vigília O pensamento inda redobra a dor, E passa linda do meu sonho a filha Soltas as tranças a morrer de amor!

E louco a sigo por desertos mares, Por doces veigas, por um céu de azul; Pouso com dia nos gentis palmares À beira d'água, nos vergéis do sul!...

E a virgem foge... e a visão se perde Por outros climas, noutro céu de luz; E eu - desperto do meu sonho verde - Acordo e choro carregando a cruz!

Pobre poeta! na manhã da vida Nem flores tenho, nem prazer também! - Roto mendigo que não tem guarida - Tímido espreito quando a noite vem!

Bendito sejas, querubim de amores, Branca açucena que o paul brotou! Teu doce pranto me acalenta as dores Da úlcera funda que ninguém curou!

A minha vida era areal despido De relva e flor e na estação louçã! Tu foste o lírio que nasceu, querido, Entre a neblina de gentil manhã.

Em ondas mortas meu batel dormia, Chorava o pano a viração sutil, Mas veio o vento no correr do dia E, leve, o bote resvalou no anil.

Eu era a flor do escalavrado galho Que a tempestade no passar quebrou; Tu foste a gota de bendito orvalho E a flor pendida a reviver tornou.

Teu rosto puro restitui-me a calma, Ergue-me as crenças, que já vejo em pé; E teus olhares me derramam n'alma Doces consolos e orações de fé.

Não serei triste; se te ouvir a fala Tremo e palpito como treme o mar, E a nota doce que teu lábio exala Virá sentida ao coração parar.

Suspenso e mudo no mais casto enlevo Direi meus hinos c'os suspiros teus, E a ti, meu anjo, a quem a vida devo Hei de adorar-te como adoro a Deus!