Portuguese poem
Delírio do Som
by Cruz e Sousa (1861–1898)
O Boabdil mais doce que um carinho, O teu piano ebúrneo soluçava, E cada nota, amor, que ele vibrava, Era-me n’alma um sol desfeito em vinho.
Me parecia a música do arminho, O perfume do lírio que cantava, A estrela-d’alva que nos céus entoava Uma canção dulcíssima baixinho.
Incomparável, teu piano — e eu cria Ver-te no espaço, em fluidos de harmonia, Bela, serena, vaporosa e nua;
Como as visões olímpicas do Reno, Cantando ao ar um delicioso treno Vago e dolente, com uns tons de lua.