Portuguese poem
Frêmitos
by Cruz e Sousa (1861–1898)
I Ó pombas luminosas Que passais neste mundo eternamente Só a cantar os madrigais de rosas, Atravessados de um luar veemente, Inundados de estrelas e esplendores, De carinhos, de bênçãos e de amores.
II Ó virgens peregrinas, De meigo olhar banhado de esperanças, Que perfumais com lírios e boninas A aurora de cristal das louras tranças, Que atravessais constantemente a vida Do sol eterno, da visão florida.
III Amadas e felizes Gêmeas da luz das frescas alvoradas, Vós que trazeis nas almas as raízes Do que é são, do que é puro—ó vós amadas Prendas gentis do paternal tesouro, Iriados corações de fluidos de ouro.
IV É para vós que eu quero Engrinaldar de tropos e de rimas, Num doce verso artístico e sincero, Esgrimir com belíssimas esgrimas A estrofe e dar-lhe os golpes mais seguros Para que brilhe como uns astros puros.
V É só a vós, apenas, Que eu me dirijo, límpidas auroras, Que pelas tardes plácidas, serenas, Passais, galantes como ingênuas Floras, Coroadas de flor de laranjeira, Noivas, sorrindo à mocidade inteira.
VI Porque é de vós que deve, De vós que o sonho eterno dulcifica, Partir o lume quando cai a neve, Surgir a crença poderosa e rica. Porque afinal, o que se chama crença, Senão o amor e a caridade imensa?
VII Os tristes e os pequenos Em quem descansam brandamente os olhos, Esses humildes, rotos Nazarenos Que vivem, morrem suportando abrolhos, Senão nos grandes entes piedosos Que dão-lhes força aos transes dolorosos?
VIII Oh, sim que a força eterna Parte dos corpos rijos da saúde, Perante a lei da vida que governa, O nobre, o rei, o proletário rude; Parte dos seres fartos de carinhos Como de paz e de alegria os ninhos.
IX Eu peço para todos E peço a vós que sois as fortalezas Da esperança, da fé — a vós que os lodos Da miséria, do vício, das baixezas, Não denegriram essas consciências Castas e brancas como as inocências.
X Nem se esperar devia Que eu tentasse bater a outras portas, Quando vós sois o exemplo de Maria; Não andais mudas, regeladas, mortas Pela noite voraz da sepultura E escutareis os dramas da amargura.
XI Não julgueis que eu vos peça, Uma alvorada feita de um sorriso; A minh'alma garante e vos confessa Que se crê nas mansões do Paraíso, É porque vós reinais por sobre a terra E o Paraíso dentro em vós se encerra.
XII A vós, a vós compete A glória do dever — porque assim como A luz do sol na lua se reflete, Também das aflições no duro assomo, Da pobreza refletem-se nas almas, Vossas imagens, como auroras calmas.
XIII Portanto, a mocidade Vossa, terá de ser de hoje em diante, Enquanto a esmagadora atrocidade Da peste — nos vorar d’instante a instante, Quem se há-de encarregar desta manobra Do galeão da vida que sossobra.
XIV E para isso, ó rainhas Da juventude — tendes as quermesses Que dão bons frutos assim como as vinhas; As matinées de cânticos e preces, Os cintilantes, pródigos bazares Onde a luz salta extravasando em mares.
XV Enquanto a mim, na arena Da heroicidade humana que consola, Oh, faz-me bem a vibração da pena, Pelo amor, pelo afago, pela esmola, Como um radiante e fulgido estilhaço De sol febril no mármore do Espaço!