Portuguese poem
Naufrágios
by Cruz e Sousa (1861–1898)
I O Mar! O mar! Quem nunca viajasse... Quem nunca dentre dúvidas sentisse O coração e ai, nunca embarcasse... Oh! quem do mar as cóleras punisse!
Ora o mar e sereno, e calmo, e manso, As vagas são melódicos arpejos Dando à embarcação leve balanço, Como um afago maternal de beijos.
Ora o mar franco, livre e transparente, Tão tranqüilo que está, tão brando, rindo, Que até parece, que até cuida a gente Que os corações podem boiar, dormindo.
Ora ferve, rebenta, estoura, estala, Rude, feroz, em convulsões; profundo, Abrindo a corpos pavorosa vala E mundos de agonia num só mundo!
II Filho! Filho! Adeus, querido, Vou viajar para além, Sejas de Deus protegido... Que sempre me queiras bem.
Vou deixar-te nesta terra, Entregue aos destinos teus; Filho, o que este adeus encerra Só o pode saber Deus.
Levo as crenças em pedaços, Como pedaços de céus. Vou ver mar, vou ver espaços Ver temporais, escarcéus.
Filho amado, vou deixar-te Cá na terra, pelo mar; Porem, crê, de qualquer parte, Crê, meu filho, hei de voltar.
III Adeus, noiva, vou-me embora, Vou-me com Deus, é preciso. Que colhas em cada aurora Muita messe de sorriso.
Sou soldado, o meu destino É viver bem longe, é certo, Longe do canto divino Da tua voz, sol aberto.
Custa bem esta partida A mim que entanto sou forte. Ninguém sabe o que é a vida Para quem vive da morte.
Da morte, sim, pomba amada; Que as minhas crenças já mortas Tu, com essa alma estrelada Sem tu sequer me confortas.
Perdi pai, perdi carinhos De mãe, de irmãos e de todos. Eu sou como a flor de espinhos Nascida por entre lodos.
Tu vieste, ó noiva, apenas, Como um íris de esperanças, Dar-me alvoradas serenas, Encher-me de confianças.
Só em ti confio, espero Com ardor, com fé veemente, Pomba de luz que eu venero, Doce vésper do oriente.
Adeus, pois chegou a hora, Vou-me com Deus, minha filha; Não chores, que o mar não chora: — Olha, vê que canta e brilha.
IV Adeus, esposa estremosa, Vou-me, não sei para quando Voltar — minh'alma saudosa Por meus filhos vai chorando.
Ficam-te eles no entretanto Pra tirarem-te os pesares, Para enxugarem-te o pranto Que há de ser maior que os mares.
Maior que os mares, não minto, Não exagero tão pouco, Porque ai, só tu e só eu sinto O nosso amor como é louco.
Vou-me às viagens, aos dias Passados entre horizontes E mares e ventanias Sem arvoredos, sem montes.
Os dias de céus eternos E de mar ilimitado, Com tempo de atroz infernos Com tempo de sol doirado.
Adeus! Cá dentro do peito Há dois corações unidos; Sobre um o mar tem direito, Sobre outro — os filhos queridos.
V Eis as canções e adeuses de saudade Que as desgraçadas almas palpitantes Soluçam na sombria imensidade Desta vida de angústias lacerantes.
Ao mar! Ao mar! Frescas aragens puras Aflam nas ondas maviosamente. Que balada de plácidas venturas, Que sinfonias, que gemer dolente!
Os céus abertos, claros, luminosos Lembram a candidez branda das virgens. Vítreos ares, magníficos, radiosos Onde o sol arde em férvidas vertigens.
Lindíssimos painéis, bela paisagem Abre na vista do viajante o ouro Da luz que salta como uma homenagem De oriental, esplêndido tesouro.
Vai bem, vai muito bem, mesmo, o navio. As vagas desenrolam-se de leve. Parece um berço por de sobre um rio Manso, prateado, espúmeo, cor de neve.
Vive-se a bordo como em terra. — As vagas Nunca foram tão doces e tão meigas, Como em desertas, viridentes plagas É doce e meigo o mole chão das veigas.
Viver assim, na realidade, é gozo Que até parece não haver na terra! Tão belo é o mar, tão calmo e bonançoso, Tal confiança nos semblantes erra!
Vogando assim a embarcação, quem pensa Ir acordado afora pela Vida?! Tudo é um sonho de esperança imensa Um bom sonho de aurora indefinida.
VI Súbito os ares enchem-se de noite E grita e zune, zargunchando o vento Que esbraveja, morde com rijo acoite O mar que espuma e empola num momento.
Não estrugem os raios pela treva Não ha trovões bravios rebentando Como canhões que estouram, — mas se eleva Do oceano um vendaval que vai urrando
Com fúrias e com cóleras enormes Como potros sanhudos relinchando Em pinotes e berros desconformes.
Caiu talvez no mar o etéreo espaço, Toda a cúpula azul tombou, quem sabe? Céus! há lutas ali, de braço a braço. Horror! Crível sera que o mundo acabe?
Ninguém calcula o que será tudo isso... Mas os ventos elétricos, largados Nas amplidões do mar antes submisso, Rugindo vão como desesperados.
Deus, ó meu Deus, todas as bocas gritam, E se afervora mais e mais a crença. Mas, onde os astros muita vez palpitam No céu, há noite cada vez mais densa.
Ah! que mudez de túmulo nos ares. Nada responde, oh! nada então responde; Mas onde está o grande Deus dos mares E da terra, onde está, aonde, aonde?
Tudo está mudo — a natureza inteira, Tudo emudece e não responde nada; E só os vendavais têm a maneira De responder dando uma gargalhada.
Gargalhada de lágrimas atrozes, De lágrimas de morte e de agonia Que abafa e extingue na garganta as vozes, Gera a coragem que e a luz do dia.
O valentes e rudes marinheiros Vindos da pátria para pátria nova, Que sepultais amores verdadeiros Do tão profundo coração na cova;
Ó viajantes de longe, de países Onde a vida cintila e canta alerta Como um turbilhão de aves felizes Numa campina de rosais, deserta;
Ó vós todos que vindes lá do oceano, Entre as mais bruscas e hórridas tormentas. Lá do mar, alto, a vela, a todo o pano, Com as almas ansiosas e sedentas,
De chegar cedo ao porto desejado, Calculai, calculai o quanto é triste Ver dar à praia um pobre desgraçado Em cuja carne a podridão existe!
À praia! À praia! Dai à praia, morto, Rejeitado por ondas convulsivas, Indo encontrar na sepultura o porto, Deixando ao mundo as ilusões mais vivas.
O eterno amor de mãe, de filho, esposa, Tanta fé, tanto riso de alegria, Tanta coisa dourada, ai tanta coisa Que ao recordar toda a nossa alma esfria.
Morrer no mar, os nervos contraídos, Numa asfixia atroz, cerrando os dentes, Num abismo de cores e gemidos, De maldições e de uivos de descrentes;
Morrer no mar, sem o farol amigo, Esse farol que os náufragos anima, Fora de proteção, fora de abrigo, Sem sequer uma luz no espaço, em cima;
Morrer no mar, sem astros no infinito, Na solidão das águas, fria, imensa, Enquanto a treva aura de granito, Ri-se de tudo, com indiferença;
Morrer no mar, só e desamparado E num terror que não acaba nunca, Vendo rasgar o corpo enregelado O desespero como garra adunca.
É horrível! Bem sei! Mas ai daqueles Que morrem mesmo assim lá no mar fundo Sem ter alguém que ao menos neste mundo Derrame uma só lágrima por eles!