Portuguese poem
Nerah
by Cruz e Sousa (1861–1898)
Nerah não brinca mais, não dança mais. — E agora Que vão-se apropinquando os tempos invernosos, Nerah traz uns receios tímidos, nervosos, De quem teme mudar-se em noite, sendo aurora.
Seus sonhos de cristal, translúcidos, antigos Se vão embora, embora à vinda dos invernos, Seguindo em debandada os úmidos galernos — — lembrando um roto bando informe de mendigos.
Não canta o sabiá que triste na gaiola, Parece, com o olhar, pedir-lhe a casta esmola De um riso — aquela flor que esvai-se, branca e fria.
Em tudo a fina seta aguda de aflições! Na própria atmosfera um caos de interjeições! Em tudo uma mortalha, em tudo uma agonia.