Versos Portuguese Fagundes Varela A cidade

Portuguese poem

A cidade

by (1841–1875)

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A cidade ali está com seus enganos, seu cortejo de vícios e traições, seus vastos templos, seus bazares amplos, seus ricos paços, seus bordéis salões.

A cidade ali está: sobre seus tetos paira dos arsenais o fumo espesso, rolam nas ruas da vaidade os coches e ri-se o crime à sombra do progresso.

A cidade ali está: sob os alpendres dorme o mendigo ao sol do meio-dia, chora a viúva em úmido tugúrio, canta na catedral a hipocrisia.

A cidade ali está: com ela o erro, a perfídia, a mentira, a desventura... Como é suave o aroma das florestas! Como é doce das serras a frescura!

A cidade ali está: cada passante que se envolve das turbas no bulício tem a maldade sobre a fronte escrita, tem na língua o veneno e nalma o vício.

Não, não é na cidade que se formam os fortes corações, as crenças grandes, como também nos charcos das planícies não é que gera-se o condor dos Andes!

Não, não é na cidade que as virtudes, as vocações eleitas resplandecem, flores de ar livre, à sombra das muralhas pendem cedo a cabeça e amarelecem.

Quanta cena infernal sob essas telhas! Quanto infantil vagido de agonia! Quanto adultério! Quanto escuro incesto! Quanta infâmia escondida à luz do dia!

Quanta atroz injustiça e quantos prantos! Quanto drama fatal! Quantos pesares! Quanta fronte celeste profanada! Quanta virgem vendida aos lupanares!

Quanto talento desbotado e morto! Quanto gênio atirado a quem mais der! Quanta afeição cortada! Quanta dúvida! Num carinho de mãe ou de mulher!

Eis a cidade! Ali a guerra, as trevas, a lama, a podridão, a iniqüidade; aqui o céu azul, as selvas virgens, o ar, a luz, a vida, a liberdade!

Ali medonhos, sórdidos alcouces, antros de perdição, covis escuros, onde ao clarão de baços candeeiros passam da noite os lêmures impuros;

E abalroam-se as múmias coroadas, corpos de lepra e de infecção cobertos, em cujos membros mordem-se raivosos os vermes pelas sedas encobertos!

Aqui verdes campinas, altos montes, regatos de cristal, matas viçosas, borboletas azuis, loiras abelhas, hinos de amor, canções melodiosas.

Ali a honra e o mérito esquecidos, mortas as crenças, mortos os afetos, os lares sem legenda, a musa exposta aos dentes vis de perros objetos!

Presa a virtude ao cofre dos banqueiros, a lei de Deus entregue aos histriões! Em cada rosto o selo do egoísmo, em cada peito um mundo de traições!

Depois o jogo, a embriaguez, o roubo, a febre nos ladrilhos do prostíbulo, o hospital, a prisão... Por desenredo a imagem pavorosa do patíbulo!

Eis a cidade!... Aqui a paz constante, serena a consciência, alegre a vida, formoso o dia, a noite sem remorsos, pródiga a terra, nossa mãe querida!

Salve, florestas virgens! Rudes serras! Templos da imorredoura liberdade! Salve! Três vezes salve! Em teus asilos Sinto-me grande, vejo a divindade!