Portuguese poem
À estátua eqüestre
by Fagundes Varela (1841–1875)
Ergue-te ousado sobre o chão da praça, Homem de bronze, — imagem de monarca, Simulacro fatal! Pisa inda as turbas humilhadas, como As duras patas do corcel que montas O chão do pedestal.
Cansadas nunca de opressores ferros, Livres de um jugo,— de outro jugo escravas, As massas enervadas Do pó resgatam seus tiranos mortos, E à luz do sol inundam de louvores, Por terra debruçadas!
Raça de Ilotas, que fizestes pois Da férvida centelha que no seio Vos pos a Divindade? Porque reledes o passado escuro, Quando deveras derribar os tronos Cantando a liberdade?
Vota-se à treva o busto dos Andradas, Some-se a glória de ferventes mártires Na lama do ervaçal! Mas fria a estátua pisa a turba, como As duras patas do corcel de bronze O chão do pedestal!
Oh terra do Brasil; — diamante vívido Da coroa soberba de Colombo, — Bela estrela do sul, — Porque tão cedo declinais a fronte E a fímbria do vestido enegreceis No limo do paul?
Porque tão cedo enregelais o seio Nessas frias geadas que predizem A morte das nações, E os pulsos presos, e a vontade escrava, Do mártir a memória e a voz dos bardos Cobris de maldições?
Erguei-vos desse lívido marasmo, Afrontai o negrume das tormentas, O horror da tirania! Se agora em bronze eternizais — senhores, — Gravai nos bronzes o brasão dos livres, Saudai um novo dia!
Embora o mundo me proclame louco, Embora à fronte com furor me gravem Estigma infernal! Não posso calmo ver pisar-se as turbas, Como o corcel de levantada estátua O chão do pedestal!