Portuguese poem
As selvas
by Fagundes Varela (1841–1875)
Selvas do Novo Mundo, amplos zimborios, Mares de sombra e ondas de verdura, Povo de Atlantes soberano e mudo Em cujos mantos o tufão murmura.
Salve! minh’alma vos procura embalde, Embalde triste vos estendo os braços... Cercam-me o corpo rebatidos muros, Prendem-me as plantas enredados laços!...
Patria da liberdade! antros profundos! Vastos palacios! eternaes castellos! Mandai-me os genios das sombrias grutas De meus grilhões espedaçar os élos!...
Ah! que eu não possa me esquivar dos homens, Matar a febre que meu sêr consome, E entre alegrias me arrojar cantando Nas seccas folhas do sertão sem nome!
Ah! que eu não possa desprender aos ermos O fogo ardente que meu craneo encerra, Gastar os dias entre o espaço e Deus Nas mattas virgens da columbia terra!
Eu não detesto nem maldigo a vida, Nem do despeito me remorde a chaga, Mas ah! sou pobre, pequenino e debil E sobre a estrada o viajor me esmaga!
Que faço triste no rumor das praças? Que busco pasmo nos salões dourados? Verme do lôdo me desprezam todos, O pobre e os grandes de esplendor cercados!
Fere-me os olhos o clarão do mundo, Rasgam-me o seio prematuras dôres, E, á mágoa insana que me enluta as noites, Declino á campa na estação das flôres.
E ha tanto encanto nas florestas virgens, Tanta belleza do sertão na sombra, Tanta harmonia no correr do rio, Tanta delicia na campestre alfombra...
Que inda podéra reviver de novo, E entre venturas flutuar minh’alma, Fanada planta que mendiga apenas A noite, o orvalho, a viração e a calma!