Versos Portuguese Fagundes Varela Aurora

Portuguese poem

Aurora

by (1841–1875)

Listen in the reader

Antes de erguer-se de seu leito de ouro, O rei dos astros o Oriente inunda De sublime clarão; Antes de as azas desprender no espaço, A tempestade agita-se e fustiga O turbilhão dos euros.

As torrentes de idéas que se cruzam, O pensamento eterno que se move No levante da vida, São auras santas, arrebóes esplendidos, Que precedem á vinda triumphante De um sol immorredouro.

O murmurar profundo, enrouquecido, Que do seio dos povos se levanta, Annuncia a tormenta; Essa tormenta salutar e grande Que o manto roçará, prenhe de fogo, Na face das nações.

Preparai-vos, ó turbas! Preparai-vos, Rebatei vossos ferros e cadêas, Algozes e tyrannos! A hora se approxima pouco a pouco, E o dedo do Senhor já volve a folha Do livro do destino!

Grande ha-de ser o drama, a acção gigante, Magestosa a lição! Luzes e trevas Luctarão sobre os orbes! O abysmo soltará seus tredos roncos, E o fremito dos mares agitados Se unirá aos das turbas.

Os reis convulsarão nos thronos frageis, Buscando embalde sustentar nas frontes As huidas corôas... Debalde!... o vendaval na furia insana Os levará com ellas, envolvidos N’um turbilhão de pó!

Vis, abatidos, o fidalgo e o rico Sahirão de seus paços vacillantes Nos podres alicerces... E errantes sobre a terra irão chorando, Mendigar um farrapo ao vagabundo, E um pedaço de pão!

Estranho povo surgirá da sombra Terrível e feroz cobrindo os campos De cruentos horrores! O palacio e a prisão irão por terra, E um segundo diluvio, então de sangue, O mundo lavará!

O sabio em seu retiro, estupefacto, Verá tombar a imagem da sciencia, Fria estatua de argilla, E um pallido clarão dirá que é perto O astro divinal que ás turbas miseras Conduz a redempção!

Como aos dias primeiros do universo, O globo se erguerá banhado em luzes, Reflexos de Deus; E a raça humana sob um céo mais puro Um hymno insigne enviará, prostrada Aos pés do Omnipotente!

Irmãos todos serão; todos felizes; Iguaes e bellos, sem senhor nem pêas, Nem tyrannos e ferros! O amor os unirá n’um laço estreito, E o transito da vida uma romagem Se tornará celeste!

A hora se approxima pouco a pouco; O dedo do Senhor já volve a folha Do livro do destino!... Ergue-se a tela do theatro immenso, E o mysterio infinito se desvenda Do drama do Calvario!