Portuguese poem
Cântico do Calvário
by Fagundes Varela (1841–1875)
Á MEMORIA DE MEU FILHO MORTO A 11 DE DEZEMBRO DE 1863.
Eras na vida a pomba predilecta Que sobre um mar de angustias conduzia 0 ramo da esperança. — Eras a estrella Que entre as nevoas do inverno scintillava Apontando o caminho ao pegureiro. Eras a messe de um dourado estio.
Eras o idyllio de um amor sublime. Eras a gloria, — a inspiração, — a patria, O porvir de teu pai! — Ah! no entanto, Pomba, — varou-te a flecha do destino! Astro, — engulio-te o temporal do norte! Tecto, cahiste ! — Crença, já não vives!
Correi, correi, oh! lagrimas saudosas, Legado acerbo da ventura extincta, Dubios archotes que a tremer clarêão A lousa fria de um sonhar que é morto! Correi! Um dia vos verei mais bellas Que os diamantes de Ophir e de Golgonda Fulgurar na corôa de martyrios Que me circumda a fronte scismadora! São mortos para mim da noite os fachos, Mas Deos vos faz brilhar, lagrimas santas, E á vossa luz caminharei nos ermos! Estrellas do soffrer, — gottas de mágoa, Brando orvalho do céo! — Sede bemditas! Oh! filho de minh’alma! Ultima rosa
Que n’esle solo ingrato vicejava! Minha esperança amargamente doce! Quando as garças vierem do occidente Buscando um novo clima onde pousarem, Não mais te embalarei sobre os joelhos, Nem de teus olhos no ceruleo brilho Acharei um consolo a meus tormentos! Não mais invocarei a musa errante N’esses retiros onde cada folha Era um polido espelho de esmeralda Que reflectia os fugitivos quadros Dos suspirados tempos que se forão! Não mais perdido em vaporosas scismas Escutarei ao pôr do sol, nas serras, Vibrar a trompa sonorosa e leda Do caçador que aos lares se recolhe!
Não mais! A arêa tem corrido, e o livro De minha infanda historia está completo! Pouco tenho de andar! Um passo ainda E o fructo de meus dias, negro, podre,
Do galho eivado rolará por terra! Ainda um threno, e o vendaval sem freio Ao soprar quebrará a ultima fibra Da lyra infausta que nas mãos sustenho! Tornei-me o écho das tristezas todas Que entre os homens achei! O lago escuro Onde ao clarão dos fogos da tormenta Mirão-se as larvas funebres do estrago! Por toda a parte em que arrastei meu manto Deixei um traço fundo de agonias!...
Oh! quantas horas não gastei, sentado Sobre as costas bravias do Oceano, Esperando que a vida se esvahisse Como um floco de espuma, ou como o friso Que deixa n’agua o lenho do barqueiro! Quantos momentos de loucura e febre Não consumi perdido nos desertos, Escutando os rumores das florestas, E procurando n’essas vozes torvas Distinguir o meu cantico de morte!
Quantas noites de angustias e delirios Não velei, entre as sombras espreitando A passagem veloz do genio horrendo Que o mundo abate ao galopar infrene Do selvagem corsel?... E tudo embalde! A vida parecia ardente e douda Agarrar-se a meu ser!... E tu tão joven, Tão puro ainda, — ainda n'alvorada, Ave banhada em mares de esperança, Rosa em botão, crysalida entre luzes, Foste o escolhido na tremenda ceifa! Ah! quando a vez primeira, em meus cabellos Senti bater teu halito suave; Quando em meus braços te cerrei, ouvindo Pulsar-te o coração divino ainda; Quando fitei teus olhos socegados, Abysmos de innocencia e de candura, E baixo e a medo murmurei: meu filho! Meu filho! phrase immensa, inexplicável, Grata como o chorar de Magdalena Aos pés do Redemptor... ah! pelas fibras Senti rugir o vento incendiado
D’esse amor infinito que eternisa O consorcio dos orbes que se enredão Dos mysterios do ser na têa augusta! Que prende o céo á terra e a terra aos anjos! Que se expande em torrentes ineffaveis Do seio immaculado de Maria!
Cegou-me tanta luz! Errei, fui homem! E de meu erro a punição cruenta Na mesma gloria que elevou-me aos astros, Chorando aos pés da cruz hoje padeço!
O som da orchestra, o retumbar dos bronzes, A voz mentida de rafeiros bardos, Torpe alegria que circumda os berços Quando a opulencia doura-lhes as bordas, Não te saudárão ao sorrir primeiro, Clicia mimosa rebentada á sombra! Mas ah! se pompas, esplendor faltárão-te, Tiveste mais que os principes da terra !
Templos, altares de affeição sem termos! Mundos de sentimento e de magia! Cantos dictados pelo proprio Deos! Oh! quantos reis que a humanidade aviltão, E o genio esmagão dos soberbos thronos, Trocarião a purpura romana Por um verso, uma nota, um som apenas Dos fecundos poemas que inspiraste!
Que bellos sonhos! Que illusões bemditas! Do cantor infeliz lançaste á vida, Arco-iris de amor! Luz da alliança, Calma e fulgente em meio da tormenta! Do exilio escuro a cithara chorosa Surgio de novo e ás virações errantes Lançou dilúvios de harmonia! — O gozo Ao pranto succedeu. As ferreas horas Em desejos alados se mudárão. Noites fugião, madrugadas vinhão, Mas sepultado n’um prazer profundo Não te deixava o berço descuidoso,
Nem de teu rosto meu olhar tirava, Nem de outros sonhos que dos teus vivia!
Como eras lindo! Nas rosadas faces Tinhas ainda o tepido vestigio Dos beijos divinaes, — nos olhos langues Brilhava o brando raio que acendêra A benção do Senhor quando o deixaste! Sobre o teu corpo a chusma dos anginhos, Filhos do ether e da luz, voavão, Rião-se alegres, das caçoilas niveas Celeste aroma te vertendo ao corpo! E eu dizia comigo: — teu destino Será mais bello que o cantar das fadas Que dansão no arrebol, — mais triumphante Que o sol nascente derribando ao nada Muralhas de negrume!... Irás tão alto Como o passaro-rei do Novo Mundo!
Ai! doudo sonho!... Uma estação passou-se, E tantas glorias, tão risonhos planos
Desfizerão-se em pó! 0 genio escuro Abrasou com seu facho ensanguentado Meus soberbos castellos. A desgraça Sentou-se em meu solar, e a soberana Dos sinistros impérios de além-mundo Com seu dedo real sellou-te a fronte! Inda te vejo pelas noites minhas, Em meus dias sem luz vejo ainda, Creio-te vivo, e mor o te pranteio!...
Ouço o tanger monotono dos sinos, E cada vibração contar parece As illusões que murchão-se comtigo! Escuto em meio de confusas vozes, Cheias de phrases pueris, estultas, O linho mortuário que retalhão Para envolver teu corpo! Vejo esparsas Saudades e perpetuas, — sinto o aroma Do incenso das igrejas, — ouço os cantos Dos ministros de Deos que me repetem Que não és mais da terra!... E choro embalde
Mas não! Tu dormes no infinito seio Do Creador dos seres! Tu me falias Na voz dos ventos, no chorar das aves, Talvez das ondas no respiro flebil! Tu me contemplas lá do céo, quem sabe, No vulto solitario de uma estrella. E são teus raios que meu estro aquecem! Pois bem! Mostra-me as voltas do caminho! Brilha e fulgura no azulado manto, Mas não te arrojes, lagrima da noite, Nas ondas nebulosas do occidente! Brilha e fulgura! Quando a morte fria Sobre mim sacudir o pó das azas, Escada de Jacob serão teus raios Por onde asinha subirá minh’alma.