Portuguese poem
Arquétipo
by Fagundes Varela (1841–1875)
Ele era belo; na espaçosa fronte O dedo do Senhor gravado havia O sigilo do gênio; em seu caminho O hino da manhã soava ainda, E os pássaros da selva gorjeando Saudavam-lhe a passagem neste mundo.
Sim, era uma criança, e no entanto Friez de morte lhe coava n'alma! O seu riso era triste como o inverno, E dos olhos cansados, nem um raio Nem um clarão, nem pálido lampejo Da mocidade o fogo revelavam!
Era-lhe a vida uma comédia insípida, Estúpida e sem graça, — ele a passava Com a fria indiferença do marujo Que fuma o seu cachimbo reclinado Na proa do navio olhando as vagas, — Vivia por viver.... porque vivia.
Em nada acreditava; há muito tempo Que a idéia de Deus soprara d'alma Como das botas a poeira incômoda. O Evangelho era um livro de anedotas, Beethoven torturava-lhe os ouvidos, A Poesia provocava o sono.
Muita donzela suspirou por ele, Muita beleza lhe dormiu nos braços, Mas frio como o gênio da descrença, Após um'hora de gozar maldito, Saciado as deixou, como o conviva, A mesa do festim, — farto e cansado. —
Era mais caprichoso, — mais bizarro Do que um filho de Álbion, mais volúvel Que um profundo político; uma tarde Após haver jantado, recordou-se Que ainda era solteiro; pelo Papa! — É preciso tentar, disse consigo.
Quatro dias depois tinha casado. Escolhera uma noiva descuidoso, Como um brinco chinês — um livro in-fólio, Ao altar conduziu-a, distraído, E as juras divinais do casamento Repetiu bocejando ao sacerdote.
Como tudo na vida, o matrimônio Bem cedo o aborreceu; após três meses Disse Adeus à mulher que pranteava, E acendendo um cigarro, a passos lentos Dirigiu-se ao teatro onde assistiu Um drama de Feuillet, — quase dormindo. —
Por fim de contas, uma noite bela, Depois de ter ceado entre dous padres, Em casa de morena Cidalisa, Pegou numa pistola e entre as fumaças De saboroso — Havana — à eternidade Foi ver si divertia-se um momento.