Versos Portuguese Fagundes Varela Elegia

Portuguese poem

Elegia

by (1841–1875)

Listen in the reader

A noite era bella: dormente no espaço A lua soltava seus pallidos lumes; Das flôres fugindo, corria lasciva A briza embebida de moles perfumes.

Do ermo os insectos zumbiam na relva, As plantas tremiam de orvalho banhadas, E aos bandos voavam ligeiras phalenas Nas folhas batendo co’as azas douradas.

O turbido manto das nevoas errantes Pairava indolente no topo da serra; E aos astros e ás nuvens perfumes, susurros, Suspiros e cantos partiam da terra.

Nós éramos jovens, ardentes e sós, Ao lado um do outro no vasto salão; E as brizas e a noite nos vinham no ouvido Cantar os mysterios de infinda paixão!

Nós eramos jovens, e a luz de seus olhos Brilhava incendida de eternos desejos, E a sombra indiscreta do niveo corpinho Sulcavam-lhe os seios em brandos arquejos!

Nós éramos jovens, e as balsas floridas O espaço inundavam de quentes perfumes, E o vento chorava nas tilias do parque, E a lua soltava seus tepidos lumes!...

Ah! misero aquelle que as sendas do mundo Trilhou sem o aroma de pallida flôr, E á tumba declina, n’aurora dos sonhos, O labio inda virgem dos beijos de amor!

Não são dos invernos as frias geadas, Nem longas jornadas que os annos apontam O tempo descora nos risos e prantos, E os dias do homem por gozos se contam.

Assim n’essa noite de mudas venturas, De louros eternos minh’alma ennastrei; Que importa-me agora martyrios e dôres, Se outr’ora dos sonhos a taça esgotei?

Ah! lembra-me ainda! nem um candelabro Lançava ao recinto seu brando clarão, Apenas os raios da pallida lua Transpondo as janellas batiam no chão.

Vestida de branco, nas scismas perdida, Seu morbido rosto pousava em meu seio, E o aroma celeste das negras madeixas Minh’alma inundava de férvido anceio.

Nem uma palavra seus labios queridos Nos dôces espasmos diziam-me então:

Que valem palavras, quando ouve-se o peito E as vidas se fundem no ardor da paixão?

Oh! ceos! eram mundos... ai! mais do que mundos Que a mente invadiam de ethereo fulgor! Poemas divinos por Deus inspirados, E a furto contados em beijos de amor!

No fim do seu gyro, da noite a princeza Deixou-nos unidos em brando sonhar; Correram as horas, — e a luz d’alvorada Em juras infindas nos veio encontrar!

Não são dos invernos as frias geadas, Nem longas jornadas que os annos apontam... O tempo descora nos risos e prantos, E os dias do homem por dôres se contam!

Ligeira... essa noite de infindas venturas Sómente em minh’alma lembranças deixou... Três mezes passaram, e o sino do templo Á reza dos mortos os homens chamou!

Três mezes passaram e um livido corpo Jazia dos cyrios á luz funeral, E, á sombra dos myrtos, o rude coveiro Abria cantando seu leito final!...

Nós eramos jovens, e a senda terrestre Trilhavamos juntos, de amor a sorrir, E as flôres e os ventos nos vinham no ouvido Contar os arcanos de um longo porvir!

Nós eramos jovens, e as vidas e os seios, O affecto prendera n’um candido nó! Foi ella a primeira que o laço quebrando Cahiu soluçando das campas no pó!

Não são dos invernos as frias geadas, Nem longas jornadas que os annos apontam, O tempo descora nos risos e prantos, E os dias do homem por dôres se contam!