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Portuguese poem

Fragmentos

by (1841–1875)

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Por ela me despi dos áureos sonhos Que a flor da mocidade abrilhantavam; Por ela reneguei meu Deus e crenças, Por ela abandonei meus pátrios lares, E nas fráguas do amor e da saudade Vi minha vida desfazer-se em fumo!

Como o perfume que transpira à noite Da margem da lagoa — a flor mimosa — Vai deleitar o viajor que a névoa Desorienta da campina extensa, Vinham amenizar — lembranças dela A sombria tristeza de minh'alma!

De plaga em plaga como o hebreu maldito Refugiei-me em vão, buscando d'alma Expulsar o pesar que me roía! Mendiguei um alívio ao céu de Itália; Aos cantos do barqueiro errei à noite — Nas ondas perfumadas de Sorrento; — Adormeci na encosta do Vesúvio, E visitei as lúcidas paragens Onde Laura e Petrarca suspiraram. Mas era embalde!... nem o céu brilhante, Nem o meigo sorriso, — o olhar de fogo

Da bela Italiana, nem os cantos, Nem os festins ruidosos de Veneza, Sanar puderam de meu seio a mágoa, E a dor pungente que ia fundo n'alma!

A loira Grécia dirigi meus passos, Adormeci à sombra dessas ruínas Onde envolto em seu manto de descrença Lorde Byron vagou. Abri meu peito Às vozes divinais de antigas eras, E no sopro das brisas que passavam Ouvi o coro de — milhões de deuses — Que das balsas floridas levantavam-se À minha invocação; de Tempe ao vale Fui aos ecos pedir — os doces cantos — Que ali ditosa repetira Safo Nos braços de Faon; e no entanto Em vão minh'alma se engolfar buscava No livro do passado, — em vão meus lábios Murmuravam canções de seus poetas! O pesar me seguia — mudo, — frio — Horrível como um plúmbeo pesadelo!

Deixei a Grécia. Às regiões ardentes Onde nuvens de areia o ar percorrem — No sólio do zenite — o sol nublando, Onde lenta caminha a caravana Abrasada de sede e de cansaço, — Fugindo o tédio de uma vida eivada, Como — Harold ou René — lancei-me triste Cercada a fronte de trevosas nuvens.

Descansei sob as tendas do deserto, Matei a sede de meu peito em fogo — Nas águas lamacentas das cisternas, E após deixando os areais sem termos

Embrenhei-me nas selvas seculares Lá onde à sombra de soberbos cedros Dormia a solidão seu sono imenso! — Mas as canções dos árabes errantes, — Os urros do simoun, — o murmúrio Da folhagem da selva, — o mundo todo — Desse vasto poema do deserto — Falavam-me de dor e de amarguras, Negra saudade me acordavam n'alma!

Vaguei nos mares à tormenta exposto, Vi diante de meus pés — o oceano e a morte, — E meu frágil baixel arrebatado — Ora no dorso de espumosas vagas — Ir doudejando topetar nas nuvens, — Ora no abismo se afundar gemendo! — Abrindo as asas negras sobre os mares Corria o furacão rugindo em fúrias Como o anjo da morte! No infinito — A orquestra da tormenta — ribombava Horrível e sublime! O céu rugia, As serpentes de fogo se enroscavam No espaço abraseado, — as ardentias Referviam no abismo escancarado Como os lumes que em breve me esperavam Na tumba imensa de revoltas águas! E enquanto os mastros a estalar caíam Ao roçar da tormenta, enquanto os nautas Prostrados no convés — a Deus clamavam Ante a agonia — a tempestade — e a morte, Pedindo às vagas, olvidando tudo, O nome dela eu murmurava em prantos.

Dos abismos à flor, como Manfredo, Os gênios invoquei — vertiginoso —

P'ra que lançassem de minh'alma aos ermos — De mim mesmo, um profundo esquecimento. Pedi a Deus — um existir de bruto, — Matéria impura sem pensar nem dores. Mas nem um gozo iluminou-me a vida, Nem uma fonte límpida e serena Rebentou — pelo Sáara — de minh'alma!

Errei nessas paragens encantadas Onde à sombra de um bosque de palmeiras Regatos correm de serenas águas: Ouvi ave sonora se embalando, A morredoura luz de amenas tardes Lançar gorjeios de saudade infinda; céu de azul me iluminava a fronte Com torrentes de luz, as flores todas Me incensavam de aromas suavíssimos. Mas — o riso da flor — o som das brisas — A criação pejada de perfumes Contando aos astros em linguagem doce Suas legendas de amores e sorrisos, Não podiam sequer matar-me n'alma O negro viso de uma dor sem termos! De deserto em deserto se acampando Os pastores da Arábia a vida passam; Como eles vagabundo, — eivado o seio, De dor em dor com vagarosos passos Atravesso os desertos da existência!

Cansado de lutar sobre esta vida, Senti um dia esmorecer no crânio A centelha da crença e da esperança. Por altas noites, na mansão dos mortos Quando a terra dormia, mergulhado Em negro pesadelo, errei sombrio

Os mistérios da campa interrogando. Haverá outra vida?... Após a morte Irei eu habitar um novo mundo Onde não sinta os desprazeres deste? Eu filho da matéria e escravo dela Serei em breve reduzido a lodo, Após haver tragado em brônzea taça Tanto fel e absinto?.. assim clamava Colando sobre a terra dos sepulcros Minha fronte incendida pela febre. Mas lá de longe, — lá do céu quem sabe, Vinha urna voz ungida de saudades, A harmonia da fé lançar-me n'alma, E a flor das esperanças — moribunda — Alimentar com tímidas promessas! Era ela! ela sempre! à noite, — ao dia — No sono — ou na vigília!... amiga sombra, Incessante visão da felicidade, Presente sempre a meus cansados olhos Na penosa jornada deste mundo!

Anjo de meu amor! — filha de Deus! Porque me inflinges o cruel suplício De ver-te sempre, — de abraçar-te nunca!

Ligeiras nebulosas que habitais Sobre os mares de éter, — róseas nuvens, — Fúlgida estrela que à manhã nascendo, Desperta o viandante nas estradas, Astros gigantes, — espantosos mundos Que girais no infinito!.... oh em vós todos Eu parecia vê-la! — ora divina Num oceano de névoas flutuando, — Ora adejando na região das luzes, — Ora no espaço que a razão apenas Só pode conceber!... em meu caminho Ela se erguia sempre; nos meus sonhos

Ela passava pensativa, — meiga Como um gênio de Óssian; nos meus versos Seu doce nome ressoava sempre! Debalde procurei riscar da mente Essa imagem divina, — parecia Que o destino a ligava à minha vida!

Todas as taças de um viver sem gozo Traguei descrido. De minh'alma as flores No lodo mergulhei, e inda tão cedo Me perdi em profundos desvarios! Fui no recinto em que circula o vício, Ao clarão da candeia fumarenta, Pender à negra mesa — empalecido — Gastando as noites no fervor do jogo! Tonto de vinho, — desvairado em febre, — Elevei minha taça transbordando Entre blasfemias e obscenos cantos! E nos gritos da orgia, — e no delírio — Uma voz sonorosa me acordava Do longo pesadelo de minh'alma, — E eu soluçava me lembrando dela!

Coberto de tristeza e de saudades, Quebrei a ausencia, atravessei os mares, Vim a vida buscar ante seus olhos. Após tão longo exílio, ardendo em gozo, O coração pulsando de alegria, Aos lares dela dirigi meus passos. Mas silencio!... um véu negro, impenetrável, Cubra esse quadro que meus olhos viram; Durma na sombra de um olvido eterno Esse mistério fúnebre, banhado De lágrimas de sangue! E tu, minh'alma,

E tu, pobre infeliz, manchada — fria — Abafa no teu seio essas lembranças, Nem um sonho sequer desse passado Venha turbar teu pesadelo imenso!