Portuguese poem
Napoleão
by Fagundes Varela (1841–1875)
Sobre uma ilha isolada, Por negros mares banhada, Vive uma sombra exilada, De prantos lavando o chão; E esta sombra dolorida, No frio manto envolvida, Repete com voz sumida: — Eu inda sou Napoleão.
Tremem convulsas as plagas Bravias luctam as vagas, Solta o vento horriveis pragas Nos sendaes da escuridão; Mas nas torvas penedias Entre fundas agonias, Ella diz às ventanias: — Eu inda sou Napoleão.
— E serei! do céo da gloria, Nem dos bronzes da memoria, Nem das paginas da historia Meus feitos se apagarão; Passe a noite e as tempestades, Venham remotas idades, Cáiam povos e cidades, — Sempre serei Napoleão.
Da columna de Vendôme, O bronze, o tempo consome, Porém não apaga o nome Que tem por bronze a amplidão. Apezar de infausto dia, Da infamia que tripudia, Dos bretões a cobardia, — Sempre serei Napoleão.
Nos vastos plainos do Egypto, Sobre Titães de granito, Eu tenho um poema escripto Que deslumbra a solidão. Das Isis rasguei os véos, Entre os altares fui deus, Fiz povos escravos meus, — Ah! inda sou Napoleão.
Desde onde o crescente brilha Até onde o Sena trilha, Tive o mundo por partilha Tive immensa adoração; E de um throno de fulgores Fiz dos grandes — servidores, Fiz dos pequenos — senhores, — E sempre fui Napoleão.
Quando eu cortava os desertos, Vinham-me os ventos incertos De incenso e myrra cobertos Lamber-me as plantas no chão; As caravanas paravam, E os romeiros que passavam Ás solidões perguntavam: — E’ este o deus Napoleão?
E lá nas plagas fagueiras, Onde as brizas forasteiras, Entre selvas de palmeiras Corre o sagrado Jordão, O lago dizia ao prado, O prado ao monte elevado, O monte ao céo estrellado: — Vistes passar Napoleão?
Dizei, auras do Ocidente, Dizei, tufão inda quente Do bafejo incandescente Do não vencido esquadrão, Como é elle? é bello, ousado? Tem o rosto illuminado? Tem o braço denodado? — Sempre é grande Napoleão?
E as aguias no céo corriam, E os areais se volviam, E horrendas feras bramiam No immenso da solidão; Mas as vozes do deserto Se erguiam como um concerto E vinham saudar-me perto: — Tu és, senhor, Napoleão!
— Se sou! que Marengo o conte, De Austerlitz o horizonte, E aquella soberba ponte Que transpuz como o tufão! E a minha villa de Ajaccio, E o meu sublime palacio, E os pescadores do Lacio Que só dizem — Napoleão!
Se o sou! que digam as plagas, Onde do sangue nas vagas, Coberta de enormes chagas Dorme vil população; Digam da Asia as bandeiras, Digam longas cordilheiras, Que se abatiam, rasteiras, Ao corcel de Napoleão!
Se o sou! diga Santa Helena Onde a mais sublime scena Fechou tranquilla e serena Minha historia de Titão, Digam as ondas bravias, Digam torvas penedias, Onde as rijas ventanias Vêm murmurar: — Napoleão.
— E serei! do céo, da gloria, Nem dos bronzes da memoria Nem das paginas da historia Meus feitos se apagarão! Assim na rocha isolada Pelas espumas banhada, Disse a sombra desterrada, De prantos lavando o chão.
As nevoas rolam nos céos, Da noite escura nos véos Soltam negros escarcéos Rugidos de imprecação; Mas das sombras a espessura A face da onda escura, O salgueiro que murmura Tudo falla — Napoleão!