Portuguese poem
Não te esqueças de mim!
by Fagundes Varela (1841–1875)
Não te esqueças de mim, quando erradia Perde-se a lua no sidéreo manto; Quando a brisa estival roçar-te a fronte, Não te esqueças de mim, que te amo tanto.
Não te esqueças de mim, quando escutares Gemer a rôla na floresta escura, E a saudosa viola do tropeiro Desfazer-se em gemido de tristura.
Quando a flôr do sertão, aberta a medo, Pejar os ermos de suave encanto, Lembre-te os dias que passei comtigo, Não te esqueças de mim, que te amo tanto.
Não te esqueças de mim, quando á tardinha Se cobrirem de nevoa as serranias, E na torre alvejante o sacro bronze Docemente soar nas freguezias!
Quando de noite, nos serões de inverno, A voz soltares modulando um canto, Lembre-te os versos que inspiraste ao bardo, Não te esqueças de mim, que te amo tanto.
Não te esqueças de mim, quando meus olhos Do sudario no gelo se apagarem, Quando as roxas perpetuas do finado Junto á cruz de meu leito se embalarem.
Quando os annos de dôr passado houverem, E o frio tempo consumir-te o pranto, Guarda ainda uma idéa a teu poeta, Não te esqueças de mim, que te amo tanto.