Versos Portuguese Fagundes Varela O escravo

Portuguese poem

O escravo

by (1841–1875)

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Dorme! Bendito o arcanjo tenebroso cujo dedo imortal gravou-te sobre a testa bronzeada o sigilo fatal! Dorme! Se a terra devorou sedenta de teu rosto o suor, mãe compassiva agora te agasalha com zelo e com amor.

Ninguém te disse o adeus da despedida, ninguém por ti chorou! Embora! A humanidade em teu sudário os olhos enxugou! A verdade luziu por um momento de teus irmãos à grei: Se vivo foste escravo, és morto... livre pela suprema lei!

Tu suspiraste como o hebreu cativo saudoso do Jordão, pesado achaste o ferro da revolta, não o quiseste, não! Lançaste-o sobre a terra inconsciente de teu próprio poder! Contra o direito, contra a natureza, preferiste morrer!

Do augusto condenado as leis são santas, são leis porém de amor: Por amor de ti mesmo e dos mais homens preciso era o valor... Não o tiveste! Os ferros e os açoites mataram-te a razão! Dobrado cativeiro! A teus algozes dobrada punição!

Por que nos teus momentos de suplício, de agonia e de dor, não chamaste das terras africanas o vento assolador? Ele traria a força e a persistência à tu'alma sem fé, nos rugidos dos tigres de Benguela, dos leões de Guiné!...

Ele traria o fogo dos desertos, o sol dos areais, a voz de teus irmãos viril e forte, o brado de teus pais! Ele te sopraria às moles fibras a raiva do suão quando agitando as crinas inflamadas fustiga a solidão!

Então ergueras resoluto a fronte, e, grande em teu valor, mostraras que em teu seio inda vibrava a voz do Criador! Mostraras que das sombras do martírio também rebenta a luz! Oh! teus grilhões seriam tão sublimes, tão santos como a cruz!

Mas morreste sem lutas, sem protestos, sem um grito sequer! Como a ovelha no altar, como a criança no ventre da mulher! Morreste sem mostrar que tinhas nalma uma chispa do céu! Como se um crime sobre ti pesasse! Como se foras réu!

Sem defesa, sem preces, sem lamentos, sem círios, sem caixão, passaste da senzala ao cemitério! Do lixo à podridão! tua essência imortal onde é que estava? Onde as leis do Senhor? Digam-no o tronco, o látego, as algemas e as ordens do feitor!

Digam-no as ambições desenfreadas, a cobiça fatal, que a eternidade arvoram nos limites de um círculo mortal! Digam-no o luxo, as pompas e grandezas, lacaios e brasões, tesouros sobre o sangue amontoados, paços sobre vulcões!

Digam-no as almas vis das prostitutas, o lodo e o cetim, o demônio do jogo, a febre acesa em ondas de rubim!... E no entanto tinhas um destino, uma vida, um porvir, um quinhão de prazeres e venturas sobre a terra a fruir!

Eras o mesmo ser, a mesma essência que teu bárbaro algoz; foram seus dias de rosada seda, os teus de atro retroz!... Pátria, família, idéias, esperanças, crenças, religião, tudo matou-te, em flor no íntimo d'alma, o dedo da opressão!

Tudo, tudo abateu sem dó, nem pena! Tudo, tudo, meu Deus! E teu olhar à lama condenado esqueceu-se dos céus!... Dorme! Bendito o arcanjo tenebroso cuja cifra imortal, selando-te o sepulcro, abriu-te os olhos à luz universal!