Portuguese poem
Névoas
by Fagundes Varela (1841–1875)
Nas horas tardias que a noite desmaia, Que rolam na praia mil vagas azuis, E a lua cercada de pálida chama Nos mares derrama seu pranto de luz,
Eu vi entre os flocos de névoas imensas Que em grutas extensas se elevam no ar, — Um corpo de fada, — serena dormindo, Tranqüila sorrindo num brando sonhar.
Na forma de neve — puríssima e nua — Um raio da lua de manso batia, Assim reclinada no túrbido leito Seu pálido peito de amores tremia.
Oh! filha das névoas! das veigas viçosas, Das verdes, — cheirosas roseiras do céu, Acaso rolaste tão bela dormindo, E dormes sorrindo, das nuvens no véu?
O orvalho das noites congela-te a fronte, As orlas do monte se escondem nas brumas, E queda repousas num mar de neblina, Qual pérola fina no leito de espumas!
Nas nuas espáduas, dos astros dormentes, — Tão frio — não sentes o pranto filtrar? E as asas
de prata do gênio das noites, Em tíbios açoites a trança agitar?
Ai! vem que nas nuvens te mata o desejo De um férvido beijo gozares em vão!... Os — astros sem alma — se cansam de olhar-te, Não podem amar-te, nem dizem paixão!
E as auras passavam, — e as névoas tremiam, — — E os gênios corriam — no espaço a cantar, Mas ela dormia tão pura e divina Qual pálida ondina nas águas do mar!
Imagem formosa das nuvens da Ilíria, — Brilhante Valquíria — das brumas do norte, Não ouves ao menos do bardo os clamores, Envolta em vapores, — mais fria que a morte!
Oh! vem! vem, minh'alma! teu rosto gelado, Teu seio molhado de orvalho brilhante, Eu quero aquecê-los no peito incendido, — Contar-te ao ouvido paixão delirante!...
Assim eu clamava tristonho e pendido, Ouvindo o gemido da onda na praia, Na hora em que fogem as névoas sombrias, — Nas horas tardias que a noite desmaia. —
E as brisas d'aurora ligeiras corriam, No leito batiam da fada divina; Sumiram-se as brumas do vento à bafagem E a pálida imagem desfez-se em — neblina!