Portuguese poem
Noturno
by Fagundes Varela (1841–1875)
Minh'alma é como um deserto Por onde romeiro incerto Procura uma sombra em vão; É como a ilha maldita Que sobre as vagas palpita Queimada por um vulcão!
Minh'alma é como a serpente Que se torce ébria e demente De vivas chamas no meio; É como a doida que dança Sem mesmo guardar lembrança Do cancro que rói-lhe o seio!
Minh'alma é como o rochedo Donde o abutre e o corvo tredo Motejam dos vendavais; Coberto de atros matizes, Lavrado das cicatrizes Do raio, nos temporais!
Nem uma luz de esperança, Nem um sopro de bonança Na fronte sinto passar! Os invernos me despiram, E as ilusões que fugiram Nunca mais hão de voltar!
Tombam as selvas frondosas, Cantam as aves mimosas As nênias da viuvez; Tudo, tudo, vai finando, Mas eu pergunto chorando: Quando será minha vez?
No véu etéreo os planetas, No casulo as borboletas Gozam da calma final; Porém meus olhos cansados São, a mirar, condenados Dos seres o funeral!
Quero morrer! Este mundo Com seu sarcasmo profundo Manchou-me de lodo e fel! Minha esperança esvaiu-se, Meu talento consumiu-se Dos martírios ao tropel!
Quero morrer! Não é crime O fardo que me comprime Dos ombros lançá-lo ao chão; Do pó desprender-me rindo E, as asas brancas abrindo, Perder-me pela amplidão!
Vem, oh! morte! A turba imunda Em sua ilusão profunda Te odeia, te calunia, Pobre noiva tão formosa Que nos espera amorosa No termo da romaria! Virgens, anjos e crianças, Coroadas de esperanças, Dobram a fronte a teus pés! Os vivos vão repousando! E tu me deixas chorando! Quando virá minha vez?
Minh'alma é como um deserto Por onde o romeiro incerto Procura uma sombra em vão; É como a ilha maldita Que sobre as vagas palpita Queimada por um vulcão!