Versos Portuguese Fagundes Varela O foragido

Portuguese poem

O foragido

by (1841–1875)

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Minha casa é deserta; na frente Brotam plantas bravias do chão, Nas paredes limosas — o cardo — Ergue a fronte silente ao tufão.

Minha casa é deserta. O que é feito Desses templos benditos d'outrora, Quando em torno cresciam roseiras, Onde as auras brincavam n'aurora?

Hoje a tribo das aves errantes Dos telhados se acampa no vão, A lagarta percorre as muralhas, Canta o grilo pousado ao fogão.

Das janelas no canto, as aranhas Leves tremem nos fios dourados, As avencas pululam viçosas Na umidade dos muros gretados.

Tudo é tredo, meus Deus! o que é feito Dessas eras de paz que lá vão, Quando junto do fogo eu ouvia As legendas sem fim do serão?

No curral esbanjado, entre espinhos, Já não bala ansioso o cordeiro, — Nem desperta-se ao toque do sino — — Nem ao canto do galo ao poleiro. —

Junto à cruz que se eleva na estrada Seco e triste se embala o chorão, Não há mais o esfumar das acácias, Nem do crente a — sentida oração.

Não há mais uma voz nestes ermos, Um gorjeio das aves no val, Só a fúria do vento retroa Alta noite agitando o ervaçal!

Ruge, oh vento gelado do norte, Torce as plantas que brotam do chão, Nunca mais eu terei as venturas Desses tempos de paz que lá vão!

Nunca mais desses dias passados Uma luz surgirá dentre as brumas! As montanhas se embuçam nas trevas, As torrentes se vendam de espumas !

Corre pois vendaval das tormentas, Hoje é tua esta morna soidão! Nada tenho, que um céu lutulento E uma cama de espinhos no chão!

Ruge, voa, que importa! sacode Em lufadas as crinas da serra, Alma nua de crença e esperanças Nada tenho a perder sobre a terra!

Vem, meu pobre e fiel companheiro, Vamos, vamos depressa, meu cão, Quero ao longo perder-me das selvas Onde passa rugindo o tufão!