Versos Portuguese Fernando Pessoa *Apoteose.*

Portuguese poem

*Apoteose.*

by (1888–1935)

Listen in the reader

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Junto de mim ressoa um timbre: Laivos sonoros! Era o que faltava na paisagem... As ondas acusticas ainda mais a subtilisam: Lá vão! Lá vão! Lá correm ágeis, Lá se esgueiram gentis, franzinas côrsas d'Alma...

Pede uma voz um numero ao telefone: Norte--2, 0, 5, 7... E no Ar eis que se cravam moldes de algarismos:

ASSUNÇÃO DA BELEZA NUMÉRICA! [Nota do Transcritor: Aqui surge a composição com números.]

Mais longe um criado deixa cair uma bandeja... Não tem fim a maravilha! Um novo turbilhão de ondas prateadas Se alarga em écos circulares, rútilos, farfalhantes Como água fria a salpicar e a refrescar o ambiente...

--Meus olhos extenuaram de Beleza!

Inefavel devaneio penumbroso-- Descem-me as palpebras vislumbradamente...

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

... Começam-me a lembrar aneis de jade De certas mãos que um dia possuí-- E ei-los, de sortílégio, já enroscando o Ar... Lembram-me beijos--e sobem Marchetações a carmim...

Divergem hélices lantejoulares... Abrem-se cristas, fendem-se gumes... Pequenos timbres d'ouro se enclavinham... Alçam-se espiras, travam-se cruzetas... Quebram-se estrelas, sossobram plumas...

Dorido, para roubar meus olhos á riqueza, Fincadamente os cerro... Embalde! Não ha defesa: Zurzem-se planos a meus ouvidos, em catadupas, Durante a escuridão-- Planos, intervalos, quebras, saltos, declives...

--Ó mágica teatral da atmosfera, --Ó mágica contemporanea--pois só nós, Os de Hoje, te dobrámos e fremimos!

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Eia! Eia! Singra o tropel das vibrações Como nunca a exgotar-se em ritmos iriados! Eu proprio sinto-me ir transmitido pelo ar, aos novelos! Eia! Eia! Eia!...

(Como tudo é diferente Irrealisado a gás: De livres pensadoras, as mesas fluidicas, Diluidas, São já como eu catolicas, e são como eu monarquicas!...)

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Sereno. Em minha face assenta-se um estrangeiro Que desdobra o «Matin». Meus olhos, já tranquilos de espaço, Ei-los que, ao entrever de longe os caracteres, Começam a vibrar Toda a nova sensibilidade tipografica.

Eh-lá! grosso normando das manchettes em sensação! Itálico afilado das crónicas diarias! Corpo-12 romano, instalado, burguez e confortavel! Góticos, cursivos, rondas, inglesas, capitais! Tipo miudinho dos pequenos anuncios! Meu elzevir de curvas pederastas!... E os ornamentos tipograficos, as vinhetas, As grossas tarjas negras, Os «puzzle» frivolos da pontuação, Os asteriscos--e as aspas... os acentos... Eh-lá! Eh-lá! Eh-lá!...

[Nota do Transcritor: Aqui surge uma composição com caracteres.]

--Abecedarios antigos e modernos, Gregos, góticos, Slavos, arabes, latinos--, Eia-hô! Eia-hô! Eia-hô!...

(Hip! Hip-lá! nova simpatia onomotopaica, Rescendente da beleza alfabetica pura: Uu-um... kess-kresss... vliiim... tlin... blong... flong... flak... Pâ-am-pam! Pam... pam... pum... pum... Hurrah!)

Mas o estrangeiro vira a página, Lê os telegramas da Ultima-Hora, Tão leve como a folha do jornal, Num rodopio de letras, Todo o mundo repousa em suas mãos!

--Hurrah! por vós, industria tipografica! --Hurrah! por vós, empresas jornalisticas!

*MARINONI* *LINOTYPE* *O SECULO* *BERLINER TAGEBLATT* *LE JOURNAL* *LA PRENSA* *CORRIERE DELLA SERA* *THE TIMES* *NOVOÏE VREMIÁ*

Por ultimo desdobra-se a folha dos anuncios... --Ó emotividade zebrante do Reclamo, Ó estética futurista--up-to-date das marcas comerciais, Das firmas e das taboletas!...

*LE BOUILLON KUB* *VIN DÉSILES* *PASTILLES VALDA* *BELLE JARDINIÈRE* *FONSECAS, SANTOS & VIANNA* HUNTLEY & PALMERS *"RODDY"* *Joseph Paquin, Bertholle & C.^ie* *LES PARFUMS DE* *COTY* *SOCIÉTÉ GÉNÉRALE* *CRÉDIT LYONNAIS* *BOOTH LINE* *NORDDEUTSCHER LLOYD* *COMPAGNE INTERNATIONAL DES WAGONS LITS ET DES GRANDS EXPRESS EUROPÉENS*

E a esbelta singeleza das firmas, LIMITADA.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Tudo isto, porêm, tudo isto, de novo eu refiro ao Ar Pois toda esta Beleza ondeia lá tambem: Numeros e letras, firmas e cartazes-- Altos-relêvos, ornamentação!...-- Palavras em liberdade, sons sem-fio,

MARINETTI + PICASSO = PARIS < *SANTA RITA PIN- TOR + FERNANDO PESSOA ALVARO DE CAMPOS !!!*

Antes de me erguer lembra-me ainda, A maravilha parisiense dos balcões de zinco, Nos bares... não sei porquê...

--Un vermouth cassis... Un Pernod à l'eau... Un amer-citron... une grenadine...

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Levanto-me... --Derrota! Ao fundo, em maior excesso, ha espelhos que reflectem Tudo quanto oscila pelo Ar: Mais belo através dêles, A mais subtil destaque... --Ó sonho desprendido, ó luar errado, Nunca em meus versos poderei cantar, Como anseara, até ao espasmo e ao Oiro, Toda essa Beleza inatingivel, Essa Beleza pura!

Rólo de mim por uma escada abaixo... Minhas mãos aperreio, Esqueço-me de todo da ideia de que as pintava... E os dentes a ranger, os olhos desviados, Sem chapéu, como um possesso: Decido-me! Corro então para a rua aos pinotes e aos gritos:

--Hilá! Hilá! Hilá-hô! Eh! Eh!...

Tum... tum... tum... tum tum tum tum...