Portuguese poem
*Certa Voz Na Noite, Ruivamente...*
by Fernando Pessoa (1888–1935)
Esquivo sortilégio o dessa voz, opiada Em sons côr de amaranto, ás noites de incerteza, Que eu lembro não sei d'Onde--a voz duma Princesa Bailando meia nua entre clarões de espada.
Leonina, ela arremessa a carne arroxeada; E bêbada de Si, arfante de Beleza, Acera os seios nus, descobre o sexo... Reza O espasmo que a estrebucha em Alma copulada...
Entanto nunca a vi, mesmo em visão. Sómente A sua voz a fulcra ao meu lembrar-me. Assim Não lhe desejo a carne--a carne inexistente...
É só de voz-em-cio a bailadeira astral-- E nessa voz-Estátua, ah! nessa voz-total, É que eu sonho esvaír-me em vicios de marfim...
Lisboa 1914--Janeiro 31