Portuguese poem
*I*
by Fernando Pessoa (1888–1935)
Atravessa esta paysagem o meu sonho d'um porto infinito E a côr das flôres é transparente de as velas de grandes navios Que largam do caes arrastando nas aguas por sombra Os vultos ao sol d'aquellas arvores antigas...
O porto que sonho é sombrio e pallido E esta paysagem é cheia de sol d'este lado... Mas no meu espirito o sol d'este dia é porto sombrio E os navios que sahem do porto são estas arvores ao sol...
Liberto em duplo, abandonei-me da paysagem abaixo... O vulto do caes é a estrada nitida e calma Que se levanta e se ergue como um muro, E os navios passam por dentro dos troncos das arvores Com uma horizontalidade vertical, E deixam cahir amarras na agua pelas folhas uma a uma dentro...
Não sei quem me sonho... Súbito toda a agua do mar do porto é transparente E vejo no fundo, como uma estampa enorme que lá estivesse desdobrada, Esta paysagem toda, renque de arvores, estrada a arder em aquelle porto, E a sombra d'uma náu mais antiga que o porto que passa Entre o meu sonho do porto e o meu vêr esta paysagem E chega ao pé de mim, e entra por mim dentro, E passa para o outro lado da minha alma...