Portuguese poem
*Distante Melodia...*
by Fernando Pessoa (1888–1935)
Num sonho d'Iris, morto a ouro e brasa, Vem-me lembranças doutro Tempo azul Que me oscilava entre véus de tule-- Um tempo esguio e leve, um tempo-Asa.
Então os meus sentidos eram côres, Nasciam num jardim as minhas ansias, Havia na minh'alma Outras distancias-- Distancias que o segui-las era flôres...
Caía Ouro se pensava Estrelas, O luar batia sobre o meu alhear-me... Noites-lagôas, como éreis belas Sob terraços-liz de recordar-me!...
Idade acorde d'Inter sonho e Lua, Onde as horas corriam sempre jade, Onde a neblina era uma saudade, E a luz--anseios de Princesa nua...
Balaústres de som, arcos de Amar, Pontes de brilho, ogivas de perfume... Dominio inexprimivel d'Ópio e lume Que nunca mais, em côr, hei de habitar...
Tapêtes doutras Persias mais Oriente... Cortinados de Chinas mais marfim... Aureos Templos de ritos de setim... Fontes correndo sombra, mansamente...
Zimbórios-panthéons de nostalgias... Catedrais de ser-Eu por sobre o mar... Escadas de honra, escadas só, ao ar... Novas Byzancios-alma, outras Turquias...
Lembranças fluidas... cinza de brocado... Irrealidade anil que em mim ondeia... --Ao meu redór eu sou Rei exilado, Vagabundo dum sonho de sereia...
Paris 1914--Junho 30